terça-feira, junho 30, 2009

O discreto bater de asas de anjos...


por: Rubem Alvez

O Victor é um adolescente. Arranjou um emprego no McDonald‘s. No McDonald‘s trabalham adolescentes. Antes de iniciar o seu trabalho eles são treinados. São treinados, primeiro, a cuidar do espaço em que trabalham: a ordem, a limpeza, os materiais – guardanapos, canudinhos, temperos, bandejas. É preciso não desperdiçar. Depois, são treinados a lidar com os clientes. Delicadeza. Atenção. Simpatia. Sorrisos. Boa vontade. Clientes não devem ser contrariados. Têm de se sentir em casa. Têm de sair satisfeitos. Se saírem contrariados, não voltarão. O Victor aprendeu bem as lições: começou o seu trabalho. Mas logo descobriu uma coisa que não estava de acordo com o aprendido: os adolescentes, fregueses, não cuidavam das coisas como eles, empregados, cuidavam. Tiravam punhados de canudinhos para brincar. Usavam mais guardanapos do que o necessário. Punham as bandejas dentro do lixo. Aí o Victor não conseguiu se comportar de acordo com as regras. Se ele e os seus colegas de trabalho obedeciam as regras, por que os clientes não deveriam obedecê-las? Por que sorrir e ser delicado com fregueses que não respeitavam as regras de educação e civilidade? E ficou claro para todo mundo, colegas e clientes, que o Victor não estava seguindo as lições... O chefe chamou o Victor. Lembrou-lhe o que lhe havia sido ensinado. O Victor não cedeu. Argumentou. Disse de forma clara o que estava sentindo. O que ele desejava era coerência. Aquela condescendência sorridente era uma má política educativa. Era injustiça. Os seus colegas de trabalho sentiam e pensavam o mesmo que ele. Mas eram mais flexíveis... Não reclamavam. Engoliam o comportamento não educado dos clientes-adolescentes com o sorriso prescrito. E o chefe, sorrindo, acabou por dar razão ao Victor. Qual a diferença que havia entre o Victor e os seus colegas? O Victor tem Síndrome de Down.

O Edmar é um adolescente. Calado. Quase não fala. Arranjou um emprego como lavador de automóveis num lava-rápido. Emprego bom para ele porque não é necessário falar enquanto se lava um carro. Mas de repente, sem nenhuma explicação, o Edmar passou a se recusar a trabalhar. Ficava quieto num canto sem dar explicações. O Edmar, como o Victor, tem Síndrome de Down. A "Fundação Síndrome de Down", que havia arranjado o emprego para o Edmar, foi informada do que estava acontecendo. Que tristeza! Um bom emprego – e parece que o Edmar ia jogar tudo fora. O caminho mais fácil seria simplesmente dizer: "Pena. Fracassamos. Não deu certo. Pessoas com Síndrome de Down são assim..." Mas a equipe encarregada da inclusão não aceitou essa solução. Tinha de haver uma razão para o estranho comportamento do Edmar. E como ele é calado e não explica as razões do que faz, uma das pessoas da equipe se empregou como lavadora de carros, no lava-rápido onde o Edmar trabalhava. E foi lá, ao lado do Edmar, que ela descobriu o nó da questão: o Edmar odiava o "pretinho" – aquele líquido que é usado nos pneus. Odiava porque o tal líquido grudava na mão, não havia jeito de lavar, e a mão ficava preta e feia. O Edmar não gostava que sua mão ficasse preta e feia. Todos os outros lavadores – sem Síndrome de Down – sentiam o mesmo que o Edmar sentia - também eles não gostavam de ver suas mãos pretas e sujas. Não gostavam mas não reclamavam. A solução? Despedir o Edmar? De jeito nenhum! A "lavadora" pôs-se a campo, numa pesquisa: haverá um outro líquido que produza o mesmo resultado nos pneus e que não seja preto? Descobriu. Havia. E assim o Edmar voltou a realizar alegremente o seu trabalho com as mãos brancas. E, graças a ele, e ao trabalho da "lavadora", todos os outros puderam ter mãos limpas ao fim do dia de trabalho.

Essa é uma surpreendente característica daqueles que têm Síndrome de Down: não aceitam aquilo que contraria o seu desejo e suas convicções. O Victor desejava coerência. Não iria engolir o comportamento não civilizado de ninguém. O Edmar queria ter suas mãos limpas. Não iria fazer uma coisa que sujasse suas mãos. Quem tem Síndrome de Down não consegue ser desonesto. Não consegue mentir. E é por isso que os adultos se sentem embaraçados pelo seu comportamento. Porque os adultos sabem fazer o jogo da mentira e do fingimento. Um adulto recebe um presente de aniversário que julga feio. Aí, com o presente feio nas mãos, ele olha para o presenteador e diz sorridente: "Mas que lindo!" Quem me contou foi o Elba Mantovaneli: ele deu um presente para a Andréa. Mas aquele presente não era o que ela queria! Ela não fingiu e nem se atrapalhou. Só disse, com um sorriso: "Vou dar o seu presente para o Fulano. Ele vai gostar..."

As crianças normais, na escola, aprendem que elas têm de engolir jilós, mandioca crua e pedaços de nabo: coisas que não fazem sentido. Aprendem o que é "dígrafo", "próclise", "ênclise", "mesóclise", os "usos da partícula se"... Você ainda se lembra? Esqueceu? Mas teve de estudar e responder certo na prova. Esqueceu, por quê? Porque não fazia sentido.

Fazer sentido: o que é isso? É simples. O corpo – sábio – carrega duas caixas na inteligência: a caixa de ferramentas e a caixa de brinquedos. Na caixa de ferramentas estão coisas que podem ser usadas. Não todas, evidentemente. Caso contrário a caixa teria o tamanho de um estádio de futebol. Seria pesada demais para ser carregada. Se vou cozinhar, na minha caixa de ferramentas deverão estar coisas necessárias para cozinhar. Mas não precisarei de machados e guindastes. Na outra caixa, de brinquedos, estão todas as coisas que dão prazer: pipas, flautas, estórias, piadas, jogos, brincadeiras, beijos, caquis... Se a coisa ensinada nem é ferramenta e nem é brinquedo, o corpo diz que não serve para nada. Não aprende. Esquece. As crianças "normais", havendo compreendido que os professores e diretores são mais fortes que elas, por ter o poder de reprovar, submetem-se. Engolem os jilós, as mandiocas cruas e os pedaços de nabo, porque terão de devolvê-los nas provas. Mas logo os vomitam pelo esquecimento. Não foi assim que aconteceu conosco? As crianças e adolescentes com Síndrome de Down simplesmente se recusam a aprender. Elas só aprendem aquilo que é expressão do seu desejo. Entrei numa sala, na "Fundação Síndrome de Down". Todos estavam concentradíssimos equacionando os elementos necessários para a produção de um cachorro quente. Certamente estavam planejando alguma festa... Numa folha estavam listados: salsicha, pão, vinagrete, mostarda... Entrei no jogo. "Esse cachorro quente de vocês não é de nada. Está faltando a coisa mais importante!" Eles me olharam espantados. Teriam se esquecido de algo? Seu cachorro quente estaria incompleto? Acrescentei: "Falta a pimenta!" Aí seus rostos se abriram num sorriso triunfante. Viraram a folha e me mostraram o que estava escrito na segunda folha: "pimenta".

Aí, vocês adultos, vão dizer: "Que coisa mais boba estudar um cachorro quente!" Respondo que bobo mesmo é estudar dígrafo, usos da partícula se, os afluentes da margem esquerda do Amazonas e assistir o "Show do Milhão". Um cachorro quente, um prato de comida, uma sopa: que maravilhosos objetos de estudo. Já pensaram que num cachorro quente se encontra todo um mundo? Querem que eu explique? Não explicarei. Vocês, que se dizem normais e inteligentes, que tratem de pensar e concluir.

A sabedoria das crianças e adolescentes com Síndrome de Down diz: "Dignas de serem sabidas são aquelas coisas que fazem sentido, que têm a ver com a minha vida e os meus desejos!" Mas isso é sabedoria para todo mundo, sabedoria fundamental que se encontra nas crianças e que vai sendo progressivamente perdida à medida que crescemos.

E há o caso delicioso do Nilson que foi eleito "funcionário do mês" no McDonald‘s. E não o foi por condescendência, colher-de-chá... Foi por mérito. O Nilson é um elemento conciliador, amigo, que espalha amizade por onde quer que ande... Todos gostam dele e o querem como companheiro.
É preciso devolver as pessoas com Síndrome de Down à vida comum de todos nós. Nós todos habitamos um mesmo mundo. Somos companheiros. É estúpido e injusto segregá-los em espaços e situações fechadas. Claro que vocês já leram a estória da Cinderela – também conhecida como "Gata Borralheira". Sua madrasta a havia segregado no "borralho". Não podia frequentar a sala. Todas as estórias são respostas a situações reais. Pois eu acho que, na vida real, a "Gata Borralheira" era uma adolescente com Síndrome de Down de quem mãe e irmãs se envergonhavam. Mas a estória dá uma reviravolta e mostra que ela tinha uma beleza que a madrasta e irmãs não possuíam. E eu sugiro que sua beleza está nessa inteligência infantil, absolutamente honesta, absolutamente comprometida com o desejo que nós, adultos, perdemos ao nos submeter ao jogo das hipocrisias sociais.

Quem quiser saber mais poderá visitar a "Fundação Síndrome de Down", em Barão Geraldo. É uma instituição maravilhosa! E digo que me comovi ao observar o carinho, inteligência e persistência daqueles que lá trabalham. E andando pelos seus corredores e salas de repente senti que havia lágrimas nos meus olhos: lembrei-me do Guido Ivan de Carvalho que foi um dos seus idealizadores e construtores, juntamente com a Lenir, sua esposa. O Guido não está mais lá. Ficou encantado... Sugeri à Lenir que plantasse, para o Guido, uma árvore, no jardim da Fundação. Se vocês não sabem, na estória original da Cinderela não havia Fada Madrinha. Quem protegia a Cinderela era a sua mãe morta, que continuava a viver sob a forma de uma árvore...
Pensando naquelas crianças e adolescentes lembrei-me de uma afirmação do apóstolo Paulo: "Deus escolheu as coisas tolas desse mundo para confundir os sábios – porque a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria dos homens..." Quem sabe será possível ouvir, naqueles rostos sorridentes, um discreto bater de asas de anjos...

Quando estive em Portugal, no ano passado, descobri, na Vila das Aves, a Escola da Ponte. Contei sobre ela no livro A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir, publicado pela Papirus. Pois uma das coisas que me surpreenderam naquela escola foi ver crianças com Síndrome de Down integradas com as outras crianças: eram suas companheiras, iguais a elas, sem que ninguém as tratasse como casos especiais. Retornei à Escola da Ponte, faz uns meses, com um grupo de educadores brasileiros. E eu andava distraído pelo jardim da escola quando ouvi um grito: "Rubem". Era o André, um deles... Maior e mais forte do que eu, correu para mim e me deu um abraço que me levantou do chão... O André se especializou em computadores e criou uma homepage através da qual se comunica com o mundo!
(Correio Popular, Caderno C, 23/09/2001.)

Dias e dias




por: Ricardo Gondim

Agora, está angustiada a minha alma, e que direi eu? Pai, salva-me desta hora? – Jesus Cristo.

Tem dias que as palavras não se completam, as frases acabam com reticências e os parágrafos perdem sentido. A gente sente uma ponta de melancolia espetando a alma. A banalidade de viver nos agride logo que tocamos o chão com os pés sonâmbulos.

Tem dias que olhamos a alvorada pela janela e engasgamos com o descaso do tempo. Escovamos os dentes, repetindo com movimentos circulares, a mesma rotina de décadas; vestimos a camisa que ainda guarda o cheiro do ferro quente; cadenciamos os passos e não notamos o vai-e-vem da maré que nos devora aos poucos.

Tem dias que assumimos nossa desvalia. Sabemos, sem jamais admitir, que todos os esforços são inúteis, todas as lágrimas, desnecessárias, todas as palavras, vãs. Só a inércia nos tange adiante. Obedecemos ao dever de sobreviver sem saber o porquê.

Tem dias que acordamos e a cabeça lateja - enxaqueca existencial. Levantamos, os postes ainda iluminam as ruas, mas não os valorizamos; eles são incapazes de clarear a nossa alma. Todos os sons parecem exagerados. Todas as cores, de mau gosto. Todos os gestos, plásticos. Perdemos o paladar. Recusamos a distração. Descartamos os conselhos. Preferimos o silêncio. Buscamos o deserto.

Nesses dias, lembramos o colo primordial, que nos embalou com afeto; o rosto meigo, que nos elegeu únicos; o berço emadeirado, que nos protegeu de quedas.

Nesses dias, ficamos atentos para a inclemente cronicidade da existência. Intuimos que só os solilóquios transformam a vaga e doce tristeza em saudade. Só a solidão converte a melancolia em nostalgia. Trágicos, aprendemos a nossa impotência. Abatidos, abandonamos os fingimentos de nossas coreografias mal ensaiadas. Sedentos, ansiamos que Alguém nos dê água viva.

Soli Deo Gloria

fonte: http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.painel.asp?tp=73

segunda-feira, junho 29, 2009

sexta-feira, junho 26, 2009

Midiático

por: Joaquim Tiago

É preciso correr com a mente para tentar acompanhar as informações que chegam a todo o momento em todo lugar. As informações hoje chegam via celular, via correio eletrônico, via sítios, via televisão, jornal, sítios de relacionamentos, via sei lá o que eles estão inventando e tudo isso tem causado uma grande revolução, haja vista o pessoal do Irã que estão usando a rede para informarem e movimentarem nos protestos.

É nosso moderno tempo da informação, da massificação da mídia, e do aceleramento de tudo isso, o aceleramento de dados por todos meios possíveis que possa aparecer ou desaparecer. Uma grande avalanche de imagens, fotos enviadas para cá e para lá. O que eu quero saber e também o que não quero posso encontrar, posso ver, posso até ler se me esforçar um pouco.

Quem sabe pensar num mundo tão pensante? Quem vai pensar nessa aldeia?

Somos acelerados nesse processo, mas poucos sabem processar o saber.

Para saber é preciso pensar e parar de correr. É preciso parar de ficar passando de canal e colocar tudo a perder de vista. Isso quer dizer que não vamos pensar em tudo?

Isso quer dizer que não tem como pensar tudo da forma como querem, pensamos só tudo o que a grande mídia quer.

A aceleração dos meus pensamentos é a morte do meu saber. Meus pensamentos não vão mudar, acostumados em um ritmo como este é só para o consumo. A única coisa que fazem pensar é no agora e o que estou vendo, sentindo com todas as informações que tenho. É como promoção relâmpago, não da tempo de pensar, só de aproveitar essa jogada, esse golpe, em tudo que já esta acelerado.

Incomodado como você vai descansar, pois ainda não terminou tudo e falta algo para completar as informações necessárias da multiplicação, da pluralização, o de por que isso ou aquilo que serve para servir meu pretexto da solução que encontrei para necessidade que me venderam.

Você tem que parar mesmo com medo de não ser adequado, ou de não se adequar às cobranças, olhe a vida inquieta, da agitação pensante, do imediatismo. O midiático como mídia do agora, do momento do acontecimento. Não sabemos mais esperar e nem aguardar, nossa ânsia é por este agora que me responda ou que eu mesmo tão perturbado produza a resposta.

Livre-me de mim Senhor e desse tempo sem tempo.

quinta-feira, junho 25, 2009

Difícil arte de ser mulher

Por: Frei Betto

(...)

“Toda mulher sabe: melhor que ser atraente, é ser amada.

Mas o amor é um valor anticapitalista.

Supõe solidariedade e não competitividade; partilha e não acúmulo; doação e não possessão.

E o machismo impregnado nessa cultura voltado ao consumismo teme a alteridade feminina.

Melhor fomentar a mulher-objeto (de consumo).”

(...)

Fonte: Estado de Minas, quinta-feira, 25 de junho de 2009.

O Rico e seu Camelo

Por: Paulo Brabo




Ilustração de Mateus 19:23-24. Um rico tenta entrar pela porta estreita do céu mas suas bolsas de dinheiro o impedem. Atrás dele três homens tentam fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha. Gravura de Phillip Galle (1537–1612) a partir de Maarten van Heemskerck (1498–1574).

DURANTE 1500 ANOS a ética cristã sustentou a exigente e improvável noção, fundamentada no igualmente intransigente ensino de Jesus, de que o desapego aos bens materiais é não apenas virtude, mas sensatez. A ambição, a ganância e o acúmulo de riquezas eram, por sua vez, tidos unanimemente como coisa feia – ao mesmo estúpida e condenável.

Naturalmente havia ricos e esses de certa forma se beneficiavam da popularidade da idéia. Enquanto vissem a pobreza como virtude os pobres não representariam ameaça ao estado de coisas. Porém mesmo os mais abastados senhores não sonhavam com as possibilidades de um sistema como o capitalismo contemporâneo, que é sustentado pela noção oposta e vive de vender incessantemente aos pobres a possibilidade de se tornarem ricos.

Mas não quero me adiantar: falemos desses dias estranhos em que a pobreza era enxergada (e no mundo ocidental!) como virtude.

O principal patrocinador da idéia foi, naturalmente, Jesus de Nazaré, que aparentemente deleitava-se em semear escândalo em todas as esferas. Jesus falava a um mundo que era infinitamente menos competitivo e ganancioso, mas já nos seus dias suas injunções e demandas sobre o dinheiro devem ter soado tremendamente difíceis de engolir:

O amor ao dinheiro é raiz de todos os males.

Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas ajuntai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam, nem roubam; porque onde está o teu tesouro aí estará também o teu coração.

O desprezo de Jesus à riqueza material não permanecia no campo da recomendação. Ele vivia frugalmente e parecia crer, contra todo o bom senso, que o indigente se encontra em posição estrategicamente mais vantajosa do que o mais confortável dos ricos.

Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos. Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome.

A respeito do que viria a ser chamado mais tarde de “ética do trabalho”, o programa de Jesus é essencialmente hakuna matata – ou, como se diz em bom português, no stress. “Não aindeis ansiosos com o dia de amanhã”, tranqüiliza ele. Jesus chama de imbecil o esforçado empreendedor que previdentemente estocou riquezas em seus armazéns, e finalmente argumenta:

Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura não valeis vós muito mais do que as aves?

Na tradição judaica esse mesmo sentimento já era expresso, para falar a verdade, mil anos antes de Jesus. “Inútil vos será levantar de madrugada, repousar tarde, comer o pão que penosamente granjeastes; aos seus amados [Deus] o dá enquanto dormem”, zomba o segundo verso do Salmo 127.

Por mais de mil anos esses conceitos gêmeos, do desapego como virtude e da ambição como vício, permearam a ética cristã e a cultura popular. Ambas faziam parte do caráter inerentemente subversivo da mensagem cristã, que neste campo (como em todos) invertia os papéis e as expectativas tradicionais, louvando o frugal e humilde e colocando o rico e orgulhoso em inesperada desvantagem.

Freado pela ideologia cristã medieval, o capitalismo não encontrava lugar para vir à luz. Permanecia sem forma e sem corpo no limbo, como mera possibilidade – aguardando paciente o momento de nascer.

Sua improvável parteira seria a teologia protestante.


fonte: http://www.baciadasalmas.com/

CATECISMO DA NÃO-RESISTÊNCIA


Por: ADIN BALLOU

CATECISMO DA NÃO-RESISTÊNCIA
A tradução [para o russo] foi livre, com algumas omissões.


Pergunta — De onde foi tirada a expressão "Não-Resistência"?
Resposta — Da frase: Não resistais ao homem mal. (Mt 5,39)
P — O que exprime esta expressão?
R — Exprime uma alta virtude cristã ensinada por Cristo.
P — Devemos aceitar a expressão da não-resistência em seu sentido mais amplo, ou seja, que ela significa que não devemos opor qualquer resistência ao mal?
R — Não. Ela deve ser compreendida no sentido exato do mandamento de Cristo, isto é, não pagar o mal com o mal. É preciso resistir ao mal com todos os meios justos, mas não por meio do mal.
P — De onde se deduz que o Cristo tenha ordenado a não-resistência neste sentido?
R — Das palavras que ele pronunciou a este respeito: "Ouvistes o que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. E eu vos digo: Não te oporás ao malvado; assim, se alguém te bate na face direita, oferece-lhe a esquerda. Ese alguém quer brigar contigo, e tirar-te o manto, deixa-lhe também a veste."
P — De que fala o Cristo ao dizer: "Ouvistes o que foi dito?"
R — Dos patriarcas e dos profetas e do que eles disseram e que está escrito no Antigo Testamento que os israelitas chamam geralmente de a Lei e os Profetas.
P — A que mandamento o Cristo faz alusão com as palavras "Vos foi dito"?
R — Ao mandamento com o qual Noé, Moisés e outros profetas dão o direito de fazer um mal pessoal àqueles que vos fizeram mal para punir e para suprimir as más ações.
P — Cite estes mandamentos.
R — Quem versa o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue versado (Gn 9,6).
— Quem ferir a outro e causar sua morte será morto.
— Mas se houver dano grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe (Ex 21,12.23.24.25).
— Se um homem golpear um ser humano, quem quer que seja, deverá morrer.
— Se um homem ferir o próximo, desfigurando-o, como ele fez assim se lhe fará.
— Fratura por fratura, olho por olho, dente por dente (Lv 24,17.19.20).
— Juizes investigarão cuidadosamente. Se a testemunha for uma testemunha falsa, e tiver caluniado seu irmão, então vós a tratareis conforme ela própria maquinava tratar seu próximo.
— Que teu olho não tenha piedade; vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé (Dt 19, 18.19 e 21).
Eis os mandamentos de que fala Jesus.
Noé, Moisés e os profetas ensinam que aquele que mata, mutila ou martiriza seu semelhante pratica o mal.
Para se opor a este mal e para suprimi-lo, querem que aquele que o praticou seja punido com a morte, com a mutilação ou com qualquer outro castigo.
Querem pagar ofensa com ofensa, homicídio com homicídio, sofrimento com sofrimento, o mal com o mal. Mas Cristo desaprova tudo isto. "Eu vos digo não vos oponhais ao mal, não pagueis ofensa com ofensa, nem mesmo se deveis suportála novamente" — escreve ele no Evangelho. O que era lícito está proibido. Tendo compreendido que gênero de resistência ensinavam Noé, Moisés e os profetas, sabemos igualmente o que significa não-resistência ensinada por Cristo.
P — Admitiam os antigos a resistência à ofensa com a ofensa?
R — Sim, mas Jesus a proibiu. O cristão não tem em caso algum o direito de tirar a vida ou de atingir com um castigo aquele que lhe fez mal.
P — Pode ele matar ou ferir para se defender?
R — Não.
P — Pode ele levar acusações diante dos tribunais para obter a punição do ofensor?
R — Não, porque o que ele faz por intermédio dos outros é o que realmente faz.
P — Pode ele combater um exército contra os inimigos de fora ou contra os rebeldes internos?
R — Não, é claro. Ele não pode tomar qualquer parte na guerra, nem mesmo na organização da guerra. Não pode usar armas mortais, não pode resistir à ofensa com a ofensa, seja sozinho ou unido a outros, aja por si ou por intermédio dos outros.
P — Pode ele, voluntariamente, reunir e armar soldados para o serviço do Estado?
R — Ele não pode fazer nada disto, se quiser ser fiel às leis do Cristo.
P — Pode ele, com benevolência, dar dinheiro ao governo que ésustentado pelas forças armadas, pela pena de morte e pela violência?
R — Não, a menos que este dinheiro não se destine a um objetivo em especial, justo por si mesmo e cujos fins e meios sejam bons.
P — Pode ele pagar impostos a tal governo?
R — Não, ele não deve voluntariamente pagar impostos; mas não deve resistir ao recolhimento de impostos. O imposto decretado pelo governo é recolhido independentemente da vontade de contribuintes. O homem não pode escapar dele sem recorrer à violência, e o cristão, não podendo usar de violência, deve abandonar a sua propriedade às arrecadações do poder.
P — Pode um cristão ser eleitor, juiz ou agente do governo?
R — Não, a participação nas eleições, na justiça, na administração, nos faz
participar da violência governamental.
P — Qual a principal virtude da doutrina da não-resistência?
R — A possibilidade de cortar o mal pela raiz em nosso próprio coração, assim como no de nossos semelhantes. Esta doutrina reprova o que perpetua e multiplica o mal no mundo. Aquele que ataca seu próximo ou que o ofende provoca sentimentos de ódio, origem de todo o mal. Ofender o próximo porque ele nos ofendeu, com o propósito de repelir o mal, é reprovar uma má ação, é despertar ou pelo menos liberar, encorajar o demónio que pretendemos repelir.
Satanás não pode ser expulso por Satanás, a mentira não pode ser purificada pela mentira, e o mal não pode ser vencido pelo mal. A verdadeira não-resistência é a única resistência ao mal. Ela degola o dragão. Destrói efaz desaparecer por completo os maus sentimentos.
P — Mas, se a idéia da doutrina é justa, ela é, afinal, exequível?
R — Tão exequível como todo bem ordenado pela Sagrada Escritura. O bem, para ser feito em qualquer circunstância, exige renúncia, privações, sofrimentos e, em casos extremos, o sacrifício da própria vida. Mas aquele que preza mais sua vida do que o cumprimento da vontade de Deus já está morto para a única vida verdadeira. Tal homem, querendo salvar sua vida, perdê-la-á. Ademais, em geral, onde a não-resistência requer o sacrifício de uma só vida ou de alguma felicidade essencial à vida, a resistência requer milhares de sacrifícios semelhantes. A não resistência conserva, a resistência destrói. ___ É muito menos perigoso agir com igualdade do que com injustiça, suportar a ofensa do que resistir a ela com violência. Em nossa vida atual, isto é também mais seguro. Se to dos os homens se abstivessem de resistir ao mal com o mal a felicidade reinaria sobre a terra.
P — Mas, se somente alguns agissem deste modo, o que seria deles?
R — Ainda que um só homem agisse assim e que todos os outros concordassem em crucificá-lo, não seria mais glorioso para ele morrer pelo triunfo do amor do que viver e carregar a coroa dos Césares encharcada com o sangue dos imolados? Mas, fosse um só homem ou fossem mil homens a haver decidido não resistir ao mal com o mal, estivesse ele entre os bárbaros ou entre os selvagens, estaria muito mais livre da violência do que com aqueles que se apoiam na violência. O bandido, o assassino, o ladino deixá-lo-iam em paz, dando preferência aos que resistem com armas.
Aquele que golpeia com a espada perecerá pela espada, enquanto aqueles que buscam a paz, que vivem irmãmente, que perdoam e esquecem as ofensas desfrutam habitualmente de paz durante a vida e são abençoados após a morte.
Se, então, todos os homens observassem o mandamento da não resistência, não haveria mais ofensa, nem delito. Se, por pouco que fosse, eles fossem a maioria, estabeleceriam logo o poder do amor e da benevolência também sobre os ofensores, sem nunca usar de violência. Se fossem apenas uma minoria importante, sempre exercitariam uma tal ação moralizadora e regeneradora sobre a humanidade que todos os castigos cruéis seriam anulados; a violência e o ódio cederiam lugar à paz e ao amor. E ainda que não fossem senão uma pequena minoria, raramente teriam que sofrer algo pior do que o desprezo do mundo, e entretanto o mundo, sem se aperceber e sem ser agradecido, tornar-se-ia progressivamente melhor e mais sábio, em conseqüência da influência dessa pequena minoria oculta. Mesmo admitindo que alguns membros dessa minoria fossem perseguidos até a morte, estas vítimas da verdade deixariam atrás de si a sua doutrina já consagrada pelo sangue do martírio. A paz esteja com aqueles que procuram a paz, e que o amor vencedor permaneça a herança imorredoura de todas as almas que se submetem livremente à lei de Cristo!
Não resistir ao mal com a violência.

Citado por: Leon Tolstoi
No clássico: O REINO DE DEUS ESTÁ EM VÓS

quarta-feira, junho 24, 2009

O que esperamos desta vida?


Por: Joaquim Tiago

“Escreva: O ímpio está envaidecido; seus desejos não são bons; mas o justo viverá pela sua fidelidade.” Hc 2.4

Há várias promessas todos os dia em todos os lares da nação. Alimentam nosso sonho com variações de pensamentos feitos pela mídia. É a fabrica dos desejos!

Geralmente esperamos o que ainda não temos ou o que para ter vida ainda falta, para nossa vida ser completa falta muita coisa que uma vida de “verdade” tem ou possui nessa terra de ninguém.

Para ter vida onde a vida se perde no que tem, é assim num mundo perdido de coisas plurais e conceitos mínimos, mas que são importante, poeira nos pés que todos querem carregar, onde nada é mais concreto ou o concreto é o nada. Os conceitos mínimos se perdem sumindo no ar, vão-se os pensamentos e vêm outros. Ficamos como sem saber o que pensar dessa vida mínima, vivida.

Viver é conquistar significado ou não, depende de como se vive e pra que se vive num monstruoso caos de informações, por mais simples que pareça as escolhas se complicam, se modificam com nossos sentimentos, nossas pressões e depressões. Vamos buscar significado em quê, ou onde, onde esta nosso coração?

O profeta Habacuque entrou em crise, pergunta para Deus o porque de tanta diferença e indiferença em mundo arbitrário, um mundo de injustiça.

Nosso mundo é globalizado, estamos sobrevivendo na chamada aldeia global, o sentido da vida não é só seu agora, pertence a todos, todos que lhe cercam em comunidades virtuais, todos que também cobram significados estão em cada aldeia e perdeu-se na mistura dessas tribos.

E como ser sincero? Como ser justo na indiferença injusta da mídia? Como não ser o que você deveria e ser como deveria realmente? Viver como justo é aproximação da realidade de quem sou e o afastamento do que está a tentar me transformar. É a consciência de quem sou e do que vim fazer aqui nesse mundo perdido.

Talvez e é bem verdade quê - o que esta fora de mim e principalmente a soberba concorrem com o que sou, ou com a mudança de mente que preciso ter. A soberba de qualquer lado e principalmente a religiosa é um dos problemas do justo e da sua vida, leva-nos a praticar forte injustiça. O soberbo só anda por aquilo que vê! Ele é facilmente enganado no que é, ou o que aparenta ser, ele não sabe viver.

Pensando assim Deus responde para Habacuque: “O justo vivera pela fé ou por sua fidelidade!” – É verdadeiramente o conhecimento ou consciência das coisas invisíveis, das coisas espirituais.

Como se vive uma vida consciente com fé e fidelidade? Vive-se de verdade e não de mentira! Dependemos mais do que vemos e ficamos preso a tudo isso, ficamos preso a imagem de um mundo caído e não é só uma questão de secularismo, mas de prisão, de encarceramento, de ser levado por um domínio real do material não podendo apenas usufruir mas obrigatoriamente guardá-lo, tenta economizar, vender e comercializar para obter grandes lucros.

A única certeza que tenho da vida é a confiança de quem a sustenta como vida, e para ser vida tento ser justo com o que sou, não posso ficar andando apenas pelo que vejo, por que sei do fato que atrás ou dentro de cada coisa existe algo invisível, existe algo a mais.

A vida não se resume ao que esperamos nessa terra, nesse mundo comercial, mas sim e sempre no eterno. Os soberbos andarão pelo que vê e tropeçarão na sua confiança, a confiança de si mesmo, sua força.

Os justos andarão por meio do que não se vê apenas, mas pela fé! É o que ele espera da vida.

terça-feira, junho 23, 2009

As opções de minha alma


por: Ricardo Gondim

Não pretendo fazer teologia com verdades “puras”, abstraídas da Bíblia a partir do pressuposto de que uma correta dissecação do texto garante a verdade. Preocupo-me com problemas éticos e práticos da pastoral. Lido com pessoas reais, que vivem problemas reais, que fazem perguntas reais.

Não pretendo fazer teologia a partir de afirmações teóricas descoladas das questões “duras” que intrigam a minha alma. Quero ser realista. Entendo por realismo, o esforço de aproximar coração e mente da existência. Acredito que o Logos, o Verbo, se fez carne e habitou entre nós; vimos, tocamos e cheiramos a verdade. O conhecimento do Logos não se restringe à racionalidade, mas transborda para o compromisso, para a comunhão, para a solidariedade e para a busca da justiça. A obediência da fé tem mais possibilidade de compreender os mistérios de Deus que o estéril exercício da racionalidade.

Não pretendo fazer teologia a partir da letra do texto, que mata. Entendo que certas verdades só são captadas pelo espírito. É preciso nascer, nadar, voar, absorver-se, divagar no Espírito para fragilmente intuir o Mistério. As cataratas espirituais caem dos olhos; as vestes puídas são despidas; os vícios categoriais, abandonados, mas só molhamos o calcanhar no rio eterno.

Não pretendo fazer teologia a partir do sucesso. Entendo que o carreirismo eclesiástico deságua em perversidade. Sacerdotes mataram o Nazareno. Teólogos acenderam fogueiras na Idade Média. Presbíteros sustentaram o aparthaid sul-africano. A verdade não se reduz à mecânica, ao ato de funcionar. Prefiro ostracismo ao aplauso dos pelegos da fé; exílio, aos holofotes do espetáculo religioso; abandono, ao adesismo interesseiro.

Não pretendo fazer teologia a partir das lógicas ensimesmadas. Reconheço que apesar de pequenos percalços, levo uma vida bem confortável. Procuro não permitir que vantagens, amparos, privilégios, me roubem da compaixão. Admito que é muito fácil abstrair sobre o sofrimento universal de dentro de zonas de segurança. Entendo o grande projeto de Deus para a humanidade: trocar corações de pedra por corações de carne. Assim, preciso molhar meus textos com lágrimas, impregnar meus discursos com misericórdia, calcar minha história com ternura.

Caminho ao sabor do vento. Navego, impreciso. Trabalho constrangido pelo amor. Vivo pela graça. Espero joeirar da fragilidade a bem-aventurança da mansidão. E com ela herdar a terra.

Soli Deo Gloria.

Comissão e omissão



Todos reconhecemos o que chamamos de “a grande comissão”: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda a criatura.” (Mc 16.15) E, de uma maneira concreta, ainda que não excelente, como o desejado, a Igreja tem cumprido a missão de levar, a cada pessoa, o conhecimento da boa notícia de que o Filho de Deus veio à Terra para buscar o que se havia perdido. O que não temos percebido é que essa comissão tem três frentes.

A primeira frente é a que já foi mencionada, o anúncio ao indivíduo, na qual nos temos saído bem, apesar de deixarmos a desejar no quesito excelência.

A segunda frente é a da implicação nacional: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” (Mt 28.19,20)

Nessa dimensão o que se considera é a influência a ser exercida sobre as nações, de modo a adequá-las às demandas do Cristo. Alguns grupos intentaram-no na história, porém, foram tentativas que, ainda que, em certa medida, produzissem efeito, tiveram um caráter extemporâneo. Mesmo a tentativa da igreja de roma, principalmente, na idade média.

Entre outros, tivemos os puritanos, na Inglaterra; os presbiterianos, na Escócia; os calvinistas, em Genebra, na Suiça; e, mais recentemente, na Holanda, com Abraham Kuipper. Causaram impacto, porém, foram episódicas, algumas, inclusive, com a intenção de implantar o Reino, ao invés de sinalizá-lo, como está proposto na Escritura, uma vez que a implantação fica por conta do Senhor em sua volta. Resta, entretanto, uma tarefa, a de influenciar as nações, de modo que o máximo possível do Reino nelas apareça, pois, não podemos nos esquecer de que há um juízo para as nações: Mt 25.32-46 – onde Jesus avaliará cada nação pela forma como os vitimados pelo sistema foram tratados. Enfim, se houve ou não justiça social.

A terceira frente é a da provocação de adoração por meio das boas obras: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus.” (Mt 5.16) Jesus ordena que manifestemos a luminosidade com a qual, ele mesmo, nos dotou. Essa luminosidade aparece na forma de boas obras, que têm a função de provocar nos beneficiados a glorificação do nome do Pai. Essas boas obras têm a ver com as nossas características que, necessariamente, nos levam a fazer o bem: As qualidades expostas nas bem-aventuranças.

Somos humildes de espírito, gente que se sabe dependente da graça, abraçando a todos sem nenhuma discriminação, reconhecendo em todos um valor intrínseco: Deus os ama e os quer salvar, portanto, devem ser amados e ajudados por nós. Somos os que choram, gente de compaixão ativa, que está onde o sofrimento acontece para diminuí-lo como for possível. Somos os mansos, gente que entende a autoridade a partir do serviço, e, então, pelo exemplo, aponta caminho para a sociedade, para a construção de uma comunidade solidária. Somos os que têm fome e sede de justiça, gente que não se esquiva de ser a voz dos que foram emudecidos pela injustiça em suas múltiplas formas. Somos misericordiosos, gente que não confunde o pecado com o pecador, reconhecendo a todo o ser humano o direito à dignidade, independente da gravidade de seu erro, aprimorando as instituições em favor do ser humano.

Somos os de coração puro, gente que sabe das possibilidades que a graça cria, que sabe que vale a pena investir no ser humano e na sociedade, porque a graça divina age eficazmente, fazendo com que o universo conspire a nosso favor; daí, estaríamos por detrás de todo ato de desenvolvimento transformador, de todo o investimento em saúde, educação, de toda a atividade que emancipe o ser humano. Somos os pacificadores, aqueles que resolvem problemas tendo em vista o estabelecimento do direito. Estamos prontos a sofrer por isso, porque foi o que vimos no Cristo, Jesus.

Infelizmente, ainda que haja um grande número de cristãos engajados nessa aplicação de nossa luminosidade, essa tem sido uma grande omissão da igreja local, a começar pelo ensino dessa verdade, de modo que os cristãos, em não o sabendo, sequer são desafiados a vivê-lo. Os cristãos não têm sido informados de que são seres luminosos e de como essa luz ilumina. Muita gente está sofrendo por causa desse desconhecimento, entre os seguidores de Jesus, sobre a sua natureza no Cristo e a consequente manifestação da mesma. Essa luz tem de brilhar.

segunda-feira, junho 22, 2009


JUDAS CONTINUA SODA

Jesus chama os seus discípulos e apóstolos para uma reunião de emergência,
devido ao alto consumo de drogas na Terra.

Depois de muito pensar, chegam à conclusão de que a melhor maneira de
combater a situação e resolvê-la definitivamente era provar a droga eles
mesmos e depois tomar as medidas adequadas.

Decide-se que uma comissão de discípulos desça ao mundo e recolha diferentes
drogas. Efetua-se a operação secreta e dois dias depois começam a regressar
os comissários.

Jesus espera à porta do céu, quando chega o primeiro servo:



-Quem é?

-Sou Paulo.

Jesus abre a
porta.

-E o que trazes, Paulo?

-Trago haxixe de Marrocos.

-Muito bem, filho. Entra.



-Quem é?

-Sou
Pedro.

Jesus abre a porta.

-E o que trazes, Pedro?

-Trago maconha do Brasil.

-Muito bem, filho. Entra.



-Quem é?

-Sou Tiago.

-E o que trazes, Tiago?

-Trago Lança perfume da Argentina.

-Entra.



-Quem é?

-Sou Marcos.

-E o que trazes, Marcos?

-Trago marijuana da Colômbia.

-Muito bem, filho. Entra.



-Quem é?

-Sou Mateus.

- E o que trazes, Mateus?

-Trago cocaína da Bolívia.

-Muito bem, filho. Entra.



-Quem é?

- Sou João.

-Jesus abre a porta e pergunta de novo:

-E tu, o que trazes, João?

-Trago crack de Nova Iorque.

- Muito bem, filho. Entra.



- Quem é?

- Sou Lucas.

-E o que
trazes, Lucas?

-Trago speeds de Amsterdam.

-Muito bem, filho. Entra.



-Quem é?

-Sou
Judas.

Jesus abre a porta.

-E tu, o que trazes, Judas?

- POLICIA FEDERAL!!! TODO MUNDO NA PAREDE, MÃO NA CABEÇA!!! ENCOSTA AÍ
CABELUDO!!! A CASA CAIU!!!

sábado, junho 20, 2009

Filosofia do Reino


Tomo I

Amando a sabedoria e na busca pela verdade, Voltaire (foi um escritor, ensaísta, deísta e filósofo iluminista francês conhecido pela sua perspicácia e espirituosidade na defesa das liberdades civis, inclusive liberdade religiosa e livre comércio) tentou combinar os sistemas de Platão com o mestre de Alexandre Magno, neste caso Aristóteles e ainda a sabedoria oriental.

O cabeção Aristóteles na suas viagens cunhou um termo interessante, creio que na busca da sabedoria e verdade supra chamado de: Physis, algo que ele inventou para denominar o que não sabia denominar, só para ter nome. O termo Meta, que é além veio depois com auxilio de seu organizador, acho que é só pra ter um lugar onde classificar seus escritos, chega-se à conclusão que tudo aquilo estava bem além do real propriamente dito.

Aristóteles gostava mesmo de chamar esses pensamento de Filosofia Primeira, o que esta além, mas é apreendido facilmente pelos nossos sentidos.

Ao meu ver, O filosofo não é simplesmente aquela pessoa que tem por prazer complicar as questões, principalmente da vida, mas o que ama a sabedoria e a simplicidade, seu prazer não é apenas em ser sábio, ou saber mais que outros, mas a sabedoria em si. Ele ama a luz, não apenas essa racionalização matemática do iluminismo, mas de saber viver com prazer.

Para que serve a filosofia, principalmente do Reino, e falo do Reino dos Céus, se não for para o ser quanto ser? Aqui esta as primeiras coisas.


Para aprofundarmos um pouco mais:

Metafísica

Metafísica (do grego μετα [meta] = depois de/além de e Φυσις [physis] = natureza ou físico) é um ramo da filosofia que estuda a essência do mundo. A saber, é o estudo do ser ou da realidade. Ocupa-se em procurar responder perguntas tais como: O que é real (veja realidade)? O que é natural (veja naturalismo)? O que é sobre-natural (veja milagre)? O ramo central da metafísica é a ontologia, que investiga em quais categorias as coisas estão no mundo e quais as relações dessas coisas entre si. A metafísica também tenta esclarecer as noções de como as pessoas entendem o mundo, incluindo a existência e a natureza do relacionamento entre objetos e suas propriedades, espaço, tempo, causalidade, e possibilidade.

Sobre a origem da palavra "Metafísica"

O sentido da palavra metafísica deve-se a Aristóteles e a Andrônico de Rodes. Aristóteles nunca utilizou esta palavra, mas escreveu sobre temas relacionados a physis e sobre temas relacionados à ética e à política, entre outros semelhantes. Andrônico, ao organizar os escritos de Aristóteles, o fez de forma que, espacialmente, aqueles que tratavam de temas relacionados a physis viessem antes dos outros. Assim, eles vinham além da física (Meta = depois, além; Physis = física). Neste sentido, a metafísica é algo intocável, que só existe no mundo das idéias.

Assim, conscientemente ou não, Andrônico organizou os escritos de forma análoga à classificação dos dois temas. Ética, política, etc., são assuntos que não tratam de seres físicos, mas de seres não-físicos existentes apesar da sua imaterialidade.

Em resumo, a Metafísica trata de problemas sobre o propósito e a origem da existência e dos seres. Especulação em torno dos primeiros princípios e das causas primeiras do ser. Muitas vezes ela é vista como parte da Filosofia, outras, se confunde com ela.

Metafísica

O termo "Metafísica" não é aristotélico; o que hoje chamamos de metafísica era chamado por Aristóteles de filosofia primeira. Esta é a ciência que se ocupa com realidades que estão além das realidades físicas que possuem fácil e imediata apreensão sensorial.

O conceito de metafísica em Aristóteles é extremamente complexo e não há uma definição única. O filósofo deu quatro definições para metafísica:

  • a ciência que indaga causas e princípios;
  • a ciência que indaga o ser enquanto ser;
  • a ciência que investiga a substância;
  • a ciência que investiga a substância supra-sensível.

Os conceitos de ato e potência, matéria e forma, substância e acidente possuem especial importância na metafísica aristotélica.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Página_principal

Vamos agora a sabedoria do Reino e ao seu princípio!

continua...

sexta-feira, junho 19, 2009

Mentes Inquietas



Você sabe o que é SPA?
R.: Síndrome do Pensamento Acelerado

Acontece quando?
Quando ha excesso de informações e o trabalho intelectual excessivo geram SPA.

Quais as conseqüências?
É caracterizado por ansiedade, insatisfação, aversão a rotina, inquietação, fadiga excessiva, ESQUECIMENTO. Centenas de pessoas tem SPA.

Obs.: Uma pessoa muito estressada e com síndrome de SPA pode gastar mais energia do que “dez” trabalhadores braçais.

Pergunta:
Sua mente é agitada?

Por: Joaquim Tiago

Um mundo de tantas informações (e deformações) como o nosso se tornou (hiper) complicado.
Não ter uma mente agitada pelo progresso, comunicação, mídia e por meios sociais que nos cobram atualizações constantes é (quase) impossível de se pensar.
Por demais ficaremos sempre ansiosos, por ainda não saber o que vai ser e o que estão prevendo ser.
Nos faltará aqui concentração, concentração para meditação e ai a o aumento da angústia existencial.
E como ser espiritual e atual num mundo MIDIÁTICO?

quinta-feira, junho 18, 2009

SOCIALISMO, CONTRADIÇÕES E PERSPECTIVAS



Por: Frei Betto

O socialismo é estruturalmente mais justo que o capitalismo. Porém, em suas experiências reais não soube equacionar a questão da liberdade individual e corporativa. Cercado por nações e pressões capitalistas, o socialismo soviético cometeu o erro de abandonar o projeto originário de democracia proletária, baseado nos sovietes, para perpetuar a maldita herança da estrutura imperial czarista da Rússia.
Não surpreende, pois, que o socialismo real tenha ruído na União Soviética, após 70 anos de vigência. Com o excessivo controle estatal, não conseguiram oferecer à população bens de consumo elementares de qualidade, mercado varejista eficiente e uma pedagogia de formação dos propalados "homem e mulher novos".
O socialismo caiu no engodo do capitalismo ao projetar o futuro da sociedade em termos de produção, distribuição e consumo. O objetivo dos dois sistemas se igualou.
O socialismo só se justifica, como sistema e proposta, na medida em que tem por objetivo, não o bom funcionamento da economia, e sim das relações humanas: a solidariedade, a cooperação, o respeito à dignidade do outro, o fim de discriminações e preconceitos.
Nesse cenário, Cuba é uma exceção e um sinal de esperança. O regime cubano é destaque no que concerne à justiça social. Prova disso é o fato de ocupar o 51º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) estabelecido pela ONU (o Brasil é o 70º) e não apresentar bolsões de miséria (embora haja pobreza) nem abrigar uma casta de ricos e privilegiados. Se há quem se lance no mar na esperança de uma vida melhor nos EUA, isso se deve às exigências, nada atrativas, de se viver num sistema de partilha. Viver em Cuba é como habitar um mosteiro: a comunidade tem precedência sobre a individualidade.
Quanto à liberdade individual, jamais foi negada aos cidadãos, exceto quando representou ameaça à segurança da Revolução. Jamais as denominações religiosas foram proibidas, os templos fechados, os sacerdotes e pastores perseguidos por razões de fé. A visita do papa João Paulo II à Ilha, em 1998, e sua apreciação positiva sobre as conquistas da Revolução, mormente nas áreas de saúde e educação, o comprovam.
No entanto, o sistema cubano dá sinais de que poderá equacionar melhor a questão de socialismo e liberdade através de mecanismos mais democráticos de participação popular no governo, de interação entre Estado e organizações de massa, maior rotatividade no poder, para que as críticas ao regime possam chegar às instâncias superiores sem serem confundidas com manifestações contrarrevolucionárias.

Frei Betto é escritor, autor de Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira, que a editora Rocco faz chegar este mês às livrarias.
Fonte: Revista Caros Amigos junho 2009 -
http://carosamigos.terra.com.br/

terça-feira, junho 16, 2009

O culto consciente da vida

Por: Joaquim Tiago

“Portanto, meus irmãos, por causa da grande misericórdia divina, peço que vocês se ofereçam completamente a Deus como sacrifício vivo, dedicado ao seu serviço e agradável a ele. Esta é a verdadeira adoração que vocês devem oferecer a Deus. Não vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudança da mente de vocês. Assim vocês conhecerão a vontade de Deus, isto é, aquilo que é bom, perfeito e agradável a ele.” Carta de Paulo aos Romanos – 12.1,2.

Um culto consciente só pode ser um sacrifício vivo. E o que é um sacrifício vivo quando todos pressupõem a morte? Só pode ser quando, mesmo vivo morremos num sacrifício mental. Num exercício da própria mente, do próprio pensar ou deixar de fazer o mesmo em função de renunciar.

É onde existe consciência do culto que se presta, que nos põe a tomar boas atitudes, boas ações. É o lugar da razão não apenas como lógica, mas intuição vinda de uma inspiração existencial da fé.

Não é apenas crer na mente nem na racionalização, mas no autor da fé que faz caminhar intuitivamente exercitando conscientemente sacrifícios vivo dos meus pensamentos transformado em atitude.

Ter consciência é pensar o tempo presente para agir conforme ao que creio. O verdadeiro culto no sentido é um sacrifício sempre nessa vida, é o sacrificar não para morte, mas para fazer morrer para ser vida verdadeira e em abundancia.

Então viver é morrer? Em Cristo a morte se faz vida! É vantagem!

Assim que consciências têm dos cultos que freqüentamos religiosamente todos os domingos? Ou melhor, existe consciência nesses sacrifícios da religião?

O problema não é só porque não queremos pensar, mas também não queremos crer. Não queremos depender dentro do viver sacrificando o próprio pensamento de si. Não há reflexão nos cultos do consumo e assim não arrependemos de fato de certas atitudes, somos de fato convencidos, instigados, forçados e adestrados.

Como vamos mudar de atitude se não sabemos nem porque fazemos determinadas coisas, arrepender não é apenas ter uma nova regra de conduta, mas uma nova consciência de vida. Essa consciência é uma completa mudança da mente sacrificando não apenas porque vai da “certo” mas porque eu creio e crer é fundamental.

É mudar minha visão do mundo conforme o Rabi de Nazaré, o Emanuel que teve compaixão das pessoas humildes por não terem pastores e teve revolta dos mercadores na porta do templo, sem consciência do que é um culto.

Viver é cultuar na cultura do nosso tempo, refletindo, meditando o arrependimento. Viver é estar no meio dos homens, os próximos, amando como um samaritano pelo caminho da verdadeira vida e não essa de ilusões vendida a cada domingo pelo fantástico mercado da mídia. Viver não é um culto de lógica onde quem ganha é quem sabe negociar, mas aquele que entrega sua vida pelo sacrifício de amar já encontrou o verdadeiro ganho dos homens cuja terra nunca foi digna, cuja fé foi inabalável.

O culto do Reino de Deus é a adoração que nós oferecemos a Ele através do seu serviço, é a completa mudança de mente onde conhecemos sua vontade. Assim nos oferecemos a Deus como um sacrifício na vida e não na morte, vivendo não como as pessoas deste mundo que estão perdendo sua vida tentando ganha-lá, tentando preservá-la.

Guarda a vida do verdadeiro sentido do culto é não querer mesmo refletir, não querer ter consciência, é se acoplar num método religioso das facilidades materiais. Guardar a vida é atrofiar a mente da intuição e reflexão. Vida de um religioso só tem sentido em sua repetição sem mudança, para no mais repetir domingo a domingo o alvo de se dar bem.

Nosso desafio agora é fazer do culto exercício de nossa consciência da fé e da vida no sacrifício servindo a Deus. Então se prepare para ação do Espírito na reflexão do tempo e cultura.

Traremos sempre aqui o resultado da revelação do nosso culto na mudança de mente.

quinta-feira, junho 11, 2009

Como perder Jesus de vista no livro de Atos

por: Paulo Brabo

Tente por um instante imaginar um mundo (e um cristianismo) em que o Novo Testamento consista exclusivamente nos quatro evangelhos – sua Bíblia e sua memória desconhecem os livros de Atos, Hebreus e Apocalipse e as cartas de Paulo, Pedro, Judas e João. Neste mundo imaginário conhecemos bastante sobre a vida, o caráter, os milagres e as palavras de Jesus de Nazaré. Sabemos com quem ele andava, quem o hostilizava, a quem ele distribuía tolerância e quem merecia sua impaciência. Ouvimos suas histórias, memorizamos seus ditados, trememos diante de suas exigências e somos continuamente desafiados pela sua vitalidade. Vemo-lo lavar os pés dos discípulos, comer com pecadores, abraçar leprosos, ter os pés massageados por prostitutas. Testemunhamos sua espiral voluntária em direção à morte e temos desconcertante indício de sua ressurreição.
Mas é só. Nada sabemos das aventuras de capa e espada de Atos, das austeras recomendações de Judas, das elaboradas explicações de Paulo, do novo céu de glória e da nova terra sem templo do Apocalipse.
A pergunta que faço, e que um número cada vez maior de cristãos se têm visto impelida a fazer, é: será possível ser cristão tomando o Jesus dos evangelhos – o Jesus de Nazaré narrado, morto e ressuscitado no testemunho dos evangelistas – por inteiramente suficiente? Será possível ser cristão (e ser igreja, seja lá o que isso for) sem abraçar necessariamente a teologia de Paulo e a administração eclesiástica de Atos?
Se sentimo-nos forçado a pensar assim é devido a uma convicção crescente, vertida gota a gota das mais inesperadas fontes, de que em dois mil anos de história o cristianismo têm, essencialmente, supervalorizado Paulo em detrimento de Jesus. Muitos de nós estamos familiarizados com a tese, popular em determinados círculos, de que Paulo propôs um cristianismo institucional que tem pouca relação com a vida e a originalidade de Jesus de Nazaré. Segundo essa teoria, o Apóstolo teria contribuído mais do que ninguém para desvirtuar o cristianismo simples e anárquico de Jesus, transformando-o em instituição e abrindo precedente para que nos milênios que se seguiram o cristianismo fosse mais conhecido por sua obsessão com a crença correta do que por sua pureza de coração; mais conhecido por sua mania em ter o primeiro lugar do que, como sonhara Jesus, em ser reconhecido pelo amor.
Paulo foi mal entendido; Jesus não foi sequer levado em conta.

Será verdade que Paulo construiu e por fim consagrou a imagem de um Jesus descarnado, glorioso mas distante da vida real, em tudo contradizendo o Jesus de carne e osso, vivo e vital, dos evangelhos? Minha posição mais ou menos estabelecida sobre o assunto é que, na história do cristianismo, Paulo foi mal entendido e Jesus de Nazaré não foi sequer levado em conta. As reflexões do Apóstolo foram moldadas à imagem de seus intérpretes e por fim cristalizadas em dogma, enquanto os desafios de Jesus permaneciam – e permanecem – virtualmente intocados, virtualmente inéditos.
Cresce em mim, além disso, a impressão de que a institucionalização e conseqüente mumificação do cristianismo histórico deve-se menos a uma interpretação [possivelmente equivocada] de Paulo do que à leitura tradicional que os cristãos imprimiram, desde provavelmente o segundo século, ao livro de Atos dos Apóstolos. Se é que acabamos, por assim dizer, perdendo Jesus de vista, isso aconteceu em algum momento da nossa leitura de Atos.
Por um lado, não deve ser à toa que levamos Atos tão a sério em nossa busca por orientação. Não temos, afinal de contas, registro mais importante da transição entre a vida terrena de Jesus e o que veio depois; entre o treinamento intensivo dos discípulos e a aplicação desse ensino na vida real; entre a ordem de fazer discípulos em todo o mundo e seu eventual cumprimento; entre o sonho messiânico de transformar o mundo e sua possível execução.
Se a postura e a mensagem do Jesus dos evangelhos são por um lado prescientemente pós-modernos e contracultura, os apuros dos apóstolos em Atos parecem estar muito mais próximos do que convencionamos associar à experiência e à essência da igreja. Nos evangelhos pode até parecer que Jesus demole as bases institucionais da religião, mas poucas páginas Novo Testamento adentro vemos Paulo fundando igrejas, apontando líderes, pregando de porta em porta e passando a sacolinha. E é em Atos e não nos evangelhos, dizem-me, que vemos o retrato da igreja e a prescrição do cristianismo como deveriam ser – então, Brabo, agüente o tranco.
A pergunta que quero me forçar a fazer é se existe em Atos algum traço do Jesus indomável que vejo com tanta clareza nos evangelhos; e, caso exista, se será possível rastreá-lo, tanto tempo depois, no relato sinfônico das façanhas dos apóstolos. Haverá em Atos algo que faça jus ao rabi que curava no sábado e semeava bem-aventuranças e maravilhava dos pássaros e abraçava criancinhas e calava diante de reis?
O que torna essa pergunta e sua resposta ainda mais relevantes está na curiosa circunstância de que o autor do livro de Atos é quase certamente Lucas, autor de um dos evangelhos, e que ele mesmo parece ter visto um relato como continuação inevitável do outro. No primeiro verso do primeiro capítulo de seu livro o autor faz a famosa referência a um tratado anterior (o evangelho de Lucas), no qual relatara “as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar”. A implicação, naturalmente, é que os evangelhos registram apenas uma porção, a primeira, das atividades de Jesus na terra; o livro de Atos fica implícito, consiste na parte II: aquilo que Jesus continuou a fazer e a ensinar através de seus discípulos.
A posição oficial do próprio Lucas, portanto, é que existe apenas continuidade entre a vida e o exemplo de Jesus de Nazaré (como registrados nos evangelhos) e os primeiros passos do cristianismo (como registrados em Atos). Não apenas uma única história e uma única linha narrativa, mas um único protagonista, que liga sem interrupção a parábola do bom samaritano ao discurso de Paulo em Atenas.
Deve ser, então, possível rastrear Jesus de Nazaré no livro de Atos; no mínimo, não deve ser impossível tentar determinar de que forma ou sob qual disfarce, na opinião de Lucas, o Filho do Homem, o rabi da Galiléia, prosseguiu agindo e ensinando através dos discípulos que preparou.
Prevejo que não será tarefa fácil. Em primeiro lugar porque, dois mil anos depois, é por certo impossível ler um livro da Bíblia de forma isenta, inteiramente livre do peso de milênios de história e de interpretação. Cada verso, cada inflexão, cada dúvida e cada aresta foram devidamente explicados, desbastados e passados a ferro pela multidão de intérpretes que nos precederam. Mesmo quando tomo a decisão consciente de aproximar-me do texto sem qualquer preconceito, descubro que o preconceito faz parte de mim mesmo, é componente inseparável da minha própria capacidade de julgamento. A consagração do texto anulou-o; sua notoriedade esgotou-o todo significado, e não há palavra que possa livrar-me do corpo desta morte.
Em segundo lugar, há que se enfrentar o fato cru de que há em Atos pouquíssimas referências, em menção ou imitação, às atividades e palavras do rabi de Nazaré.
Muito já se falou sobre a ausência do Jesus histórico nas cartas de Paulo. Já foi observado que, se dependêssemos do testemunho de Paulo, não teríamos como saber que Jesus nasceu de uma virgem, ensinava através de parábolas e era companheiro de pecadores. Paulo não menciona sequer uma frase de Jesus, um milagre, um evento importante que não seja sua morte e ressurreição.
Preciso confessar que essa ausência do maltrapilho de Nazaré me incomoda mais em Atos do que em Paulo. As cartas de Paulo são – como o nome diz – cartas, escritas todas elas com o intuito de abordar questões muito específicas diante de grupos muito específicos. Nenhuma delas foi escrita com a finalidade de apresentar a pessoa de Jesus ou a sua história para quem não o conhecesse ou nunca tivesse ouvido falar dele. Essa circunstância, por si só, deveria servir para explicar em grande parte a ausência de referências diretas à história e ao ensino de Jesus. Essas coisas, o apóstolo poderia pressupor, estavam sendo devidamente transmitidas em outro lugar; apresentar Jesus não é, definitivamente, o que o leva a escrever.
Em Atos, por outro lado, a coisa deveria ser diferente. Vemos aqui, em grande parte, Jesus sendo proposto e apresentado a gente que nunca ouviu falar dele – ou, em alguns casos, a gente que tinha dele informações duvidosas e pouco positivas. E, surpreendentemente, em nenhum lugar – em ato nenhum de nenhum apóstolo – encontramos referência às palavras, às histórias e ao modo de vida do Jesus dos evangelhos. Pedro jamais diz “sabem, fui discípulo de um rabi na Galiléia, um homem absolutamente notável que descobri mais tarde ser o messias. Estávamos um dia no meu barquinho quando ele contou uma parábola que nunca vou esquecer…”
Nada. Nem uma palavra. Nenhuma menção a Jesus de Nazaré que não seja com respeito à sua morte, sua ressurreição, ao fato de que tinha discípulos ou à promessa do Espírito Santo. Se Lucas não perdeu Jesus de vista quando escreveu seu segundo tratado, se os discípulos não perderam Jesus de vista quando se embriagaram com o Espírito Santo, se Paulo não perdeu Jesus de vista quando foi cegado pelo esplendor de Damasco; bem, o mesmo não pode ser dito de mim. Preciso saber se ele continua mesmo ali.

quarta-feira, junho 10, 2009

Por que você não quer mais ir à igreja?


Por que você não quer mais ir à igreja?

Wayne Jacobsen e Dave Coleman

Depois de toda uma vida dedicando-se à Igreja e ao caminho que sempre lhe pareceu o certo, Jake Colsen está diante de uma dolorosa dúvida: como é possível ser cristão há tanto tempo e, ainda assim, se sentir tão vazio?

Mas o amor divino está sempre a postos para transformar vidas. Observando uma multidão numa praça, Jake depara com João, um homem que fala de Jesus como se o tivesse conhecido e que percebe a realidade de uma forma que desafia a visão tradicional de religião.

Com a ajuda do novo amigo, Jake irá reavaliar os conceitos e crenças que norteavam seu caminho. Levar uma vida cristã significa ter os comportamentos aprovados pelo grupo religioso a que pertencemos?

A cada nova palavra de João, assistiremos ao renascimento de Jake em busca da verdadeira alegria e da liberdade que Cristo veio ao mundo oferecer. Na reconstrução da sua vida, perceberemos a ação do Deus de perdão e amor.

***

"Se eu fosse vocês, perderia menos tempo falando mal da religião e investiria mais para descobrir quanto Jesus deseja ser nosso amigo sem impor qualquer condição. Ele vai cuidar de vocês e, se deixarem, se tornará, de longe, seu melhor amigo. Se o conhecerem melhor, vocês o amarão mais do que a qualquer outra pessoa. Ele lhes dará um propósito, um sentido de vida, que lhes permitirá superar todo estresse e sofrimento e que os transformará profundamente."

Sobrecarregado de trabalho e desiludido com o rumo da sua vida, o pastor Jake Colsen conhece um homem que ele acredita ser o apóstolo João e que o leva a repensar suas crenças e resgatar a fé verdadeira.

Ao longo de quatro anos, esse homem surge no caminho de Jake nos locais e momentos mais improváveis, fazendo com que o pastor enfrente seus maiores medos, mude antigos hábitos e reconstrua sua história com base em uma relação sincera com Deus.

Se você busca pela fé mesmo onde a religião não alcança e sente que ser cristão é muito mais do que seguir regras e rituais, a trajetória de Jake servirá de inspiração para encontrar a verdadeira liberdade e alegria.

http://www.esextante.com.br/

obs.: Creio valer a pena ler este também! Na resposta de Jesus para os mestres farizeus:
"E, respondendo ele, disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão." (Lucas 19 : 40)

segunda-feira, junho 08, 2009

Multidão e discípulos: as duas igrejas da realidade



Em Mateus 16, do verso 13 ao 20, Jesus, enquanto caminhava para Cesaréia, aldeia ao norte da Galiléia, administrada por Filipe, perguntou aos seus discípulos sobre o que o povo pensava dele. Queria saber que identidade lhe atribuiam.
A gente sempre se relaciona com o outro a partir da identidade que lhe atribuimos, independente dessa identidade atribuída corresponder ou não com a identidade assumida pelo outro.
O povo atribuiu ao Senhor a identidade de profeta. É verdade que o compararam aos profetas mais contundentes que Israel já conheceu: Elias, Jeremias e João Batista. Mas profeta.
O povo errou, entretanto, Jesus não fez nenhum comentário.
O povo não sabia quem era Jesus, mas não se importava muito com isso, porque buscava o que Cristo lhes pudesse fazer, não, necessariamente, o que tivesse a lhes dizer. Tanto que Jesus teve de orientar os discípulos a ter sempre um barquinho à mão caso ele fosse comprimido pelo povo (Mc 3.9,10). Porque, como o povo percebera que bastava tocar em Jesus para ser curado, muitos arrojavam-se sobre ele para o tocar. Iam ao encontro de Jesus para buscar uma benção. De fato, ao invés de irem ao encontro de Jesus, iam-lhe de encontro. Jesus, então, foi obrigado a se proteger do povo que queria abraçar.
Acho que podemos chamar a esse ajuntamento de A Igreja da Multidão. A igreja que não sabe quem é Jesus, só sabe e só se importa em saber o que Jesus lhe pode fazer, como lhe pode ser útil.
Hoje, cada vez mais, há igrejas que parecem ter o mesmo perfil da multidão: sua mensagem acaba por incentivar um relacionamento utilitário com Jesus.
Em contrapartida há a Igreja dos Discípulos.
Pedro, à mesma pergunta, respondeu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo. Resposta perfeita, porque diz que Jesus era o Messias esperado, mas era mais do que se esperava, pois aguardava-se o maior de todos os profetas (era o que criam os mestres de Israel na época), entretando, Deus mesmo veio em carne e osso para salvar a humanidade.
Essa Igreja sabe quem Jesus é. E o sabe porque o próprio Pai o revelou, como afirmou Jesus a Pedro. A Igreja dos Discípulos é a Igreja que o Pai deu para o Filho, porque pertence a ela aqueles a quem Jesus, pelo Pai, foi apresentado (Jo 6.44).
A Igreja dos Discípulos sabe que a única maneira de relacionar-se corretamente com Jesus é através da adoração. A um líder a gente segue; a um chefe a gente obedece; a um profeta a gente ouve; de um mestre a gente aprende; a Deus a gente adora. Essa é a Igreja que o Filho edifica, porque esta fica sobre a Pedra, que é Jesus reconhecido como Deus que veio em carne e osso para nos salvar.
E como nos ensinou o apóstolo Paulo, adorar a Jesus é imitá-lo (1 Co 11.1). E isso é fruto do desejo de ser igual a Jesus, e quanto mais a gente anda em direção a esse desejo, mais o Espírito Santo o torna realidade em nossas vidas (2 Co 3.18).
A Igreja da Multidão está à cata das bençãos. Do tipo que até o adversário pode dar.
A Igreja dos Discípulos está à cata das palavras de vida eterna; essas que só Jesus tem (Jo 6.68).
A Igreja da Multidão busca crescer a todo custo, e para isso lança mão de todo e qualquer esquema.
A Igreja dos Discípulos vai buscar as ovelhas de Cristo, as que reconhecerão a sua voz, para que haja um só rebanho e um só pastor (Jo 10.16); e, para isso insiste na exposição da verdade que liberta.
A Igreja da Multidão promete o fim do sofrimento e bençãos materiais.
A Igreja dos Discípulos promete a vida abundante e a ressurreição.
A Igreja da Multidão convoca indivíduos a serem individualistas: a terem tudo o que, pela fé, possam conseguir.
A Igreja dos Discípulos convoca indivíduos a serem pessoas comunitárias: a doarem tudo o que a fé, que liberta das posses, permite doar.
A Igreja da Multidão exorta as pessoas a desfrutarem o mundo.
A Igreja dos Discípulos exorta as pessoas a, irmanadas, transformarem o mundo.
A igreja dos Discipulos está querendo mais da vida de Jesus para, na vida, ser cada vez mais como Jesus.
Cada pessoa que se diz seguidora de Cristo; cada pessoa que se considera pregadora do evangelho; cada comunidade que se diz cristã precisa se submeter a esse gabarito, para descobrir de que referencial faz parte, ou de qual se aproxima mais: da Igreja da Multidão ou da Igreja dos Discípulos.
Todos seremos tentados a buscar o que busca a Igreja da Multidão, mas não nos esqueçamos: o tesouro é Cristo e, com ele, vem tudo o que precisamos para ser como ele: gente como gente deve ser.
No Reino de Deus Jesus é tudo em todos os súditos; e tudo o que os súditos do Reino querem ser é todo Jesus.

quinta-feira, junho 04, 2009

Contingência e o vôo 447


Ricardo Gondim


O mundo está em choque. De novo a contingência mostra sua cara na tragédia do vôo da Air France. Vale lembrar: contingência significa que os acontecimentos não são sempre necessários. Quando ocorre alguma coisa sem uma razão que a explique ou justifique. Contingência gera imprevisto; fatos que escapam à engrenagem da causa e do efeito. Um avião cai porque o mundo é contingente, não porque tenha sido vítima do destino ou de um plano de Deus.

Diz-se no senso comum que as pessoas só morrem quando chega a hora. Caso isso fosse verdadeiro, o destino reuniu em uma aeronave as pessoas que deveriam morrer naquele dia. Isso daria à fatalidade um poder apavorante. Impossível pensar que gente de mais de trinta países entrou no vôo 447 sem saber que obedecia a uma força cega, que determinava aquele como o último dia de suas vidas.

Igualmente, acreditar que Deus permite a queda do avião porque tem algum propósito, soa esquisito. Cada pessoa, com histórias, projetos, sonhos, foi arrancada da existência para que se cumprisse qual objetivo? Um objetivo macro? Isto é, para que a humanidade aprendesse ou se arrependesse? Isso faria com que as biografias fossem descartáveis, desprezíveis. O Divino Oleiro, sem precisar se explicar, afogaria tanta gente para conduzir a macro história para o fim glorioso? Sim? Mesmo que exista esse deus, eu não o quero.

Também, algumas pessoas aceitam que Deus tem um plano para cada morte individual. Verdade, ele é Deus, tem todo o poder e é capaz de reunir, em um só lugar, quem deveria morrer. Mas também é bom. Então todos os passageiros foram eleitos para cumprir qual bem? Satisfaz pensar que o bem de ceifar tantas vidas, mesmo sem nenhum sentido do lado de cá, está garantido na eternidade? (Deus sabe o que faz?!?!) Como explicar tal conceito para pais, filhos e parentes desolados? Todos acorrentados à trágica realidade que lhes roubou de seus queridos.

A idéia de que Deus tem um plano para cada morte se esvazia diante dos números. Um avião caiu, mas o que dizer dos incontáveis acidentes de todos os dias? O que dizer das balas perdidas que aleijam transeuntes? E dos erros médicos ou dos acidentes de trânsito? Recentemente uma senhora de nossa comunidade caiu da laje da casa em construção. Ela fotografava a obra para que a filha ajudasse com as despesas do acabamento. Quebrou a coluna e ficou paraplégica. A última explicação que se poderia dar é que Deus tinha um plano em deixá-la paralítica.

Jesus nunca cogitou o mundo sem contingência. Pelo contrário, não atrelou a queda de uma torre aos desígnios divinos; não disse que a cegueira do homem era consequência causal das ações interiores, dele ou de seus pais; advertiu que os seus discípulos enfrentariam tempestade, aflição e morte.

Contingência é o espaço da liberdade, portanto, da condição humana. Sem contingência nos desumanizaríamos. A consciência do risco de adoecer e da imprevisibilidade da morte súbita é o preço que pagamos por nossa humanidade.

O desastre do avião mostra a inutilidade de pensar que o exercício correto da religião e a capacidade tecnológica mais excelente sejam suficientes para anular a contingência. Nossa vida é imprecisa e efêmera. Portanto, vivamos intensamente. Cada instante pode ser o último – Carpe Diem!

Soli Deo Gloria

FONTE:http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=61&sg=0&id=2204