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quinta-feira, novembro 05, 2009

Com a ciência e a tecnologia, homem está querendo ser Deus


Por: Leonardo Boff


Ser humano jamais superará os limites de sua natureza

Rose Marie Muraro é uma mulher impossível. Com extrema limitação de vista e de saúde, escreveu 35 livros e editou cerca de outros 1.600. Foi pioneira do feminismo brasileiro. Seu estudo sobre a sexualidade da mulher brasileira se transformou num clássico, seja pela metodologia, seja pelas categorias de análise.

Formada em física, sempre se preocupou com a tecnologia e sua incidência no destino humano. Agora, no avanço dos anos, e após muitas pesquisas manejando mole imensas fontes, nos entrega um livro-síntese: "Os Avanços Tecnológicos e o Futuro da Humanidade: Querendo Ser Deus?", publicação da Editora Vozes, de Petrópolis, da qual foi diretora editorial.

O subtítulo "Querendo Ser Deus?" define a perspectiva de sua análise e, ao mesmo tempo, faz ecoar uma denúncia contra o tipo de ciência e de tecnologia dominantes na história, desde os alvores da humanidade, quando há mais de 2 milhões de anos surgiu o homo faber, aquele que primeiro utilizou o instrumento para se impor à natureza, passando por vários períodos com suas respectivas revoluções, até chegar aos tempos contemporâneos da engenharia genética, da robótica, da nanotecnologia e da biologia sintética, para culminar na fusão entre homem e máquina.

O que Rose nos mostra é o calvário da Terra e a lenta e progressiva crucificação da vida e da natureza através da tecnociência, posta a serviço da vontade de poder na sua concretização mais crua e cruel no capital/dinheiro.

Mas nem sempre foi assim. Primitivamente, o saber e a técnica estavam a serviço da solidariedade e da partilha, atendendo as demandas humanas e aliviando o peso da vida. Mas, do momento em que surgiu a moeda e ela se fez a mediação exclusiva para todas as trocas e se transformou em mercadoria com preço (juros), se produz uma perversa revolução. Passa-se da cooperação para a competição, do cuidado para a agressividade. O que vige então é o ganha/perde e não o ganha/ganha.

Os senhores do dinheiro assujeitam a si as pessoas, controlam a sociedade e decidem que saber e que técnica cabe desenvolver para reforçar seu poder. Não se produz para a vida, mas para o mercado. Não se inventa para a sociedade, mas para o lucro.

O atual projeto da tecnociência acelerou enormemente a história. Em cem anos, a humanidade caminhou mais do que nos dois milhões de anos anteriores. Essa velocidade estonteou a mente e está gerando uma verdadeira mutação humana, somente comparável àquela ocorrida na evolução biológica multimilenar. Cientistas projetam introduzir nanopartículas na corrente sanguínea do cérebro para gestar uma inteligência supra-humana. Emergiria assim um híbrido de ser humano e máquina, bifurcando a humanidade entre os melhorados e os não melhorados.
É contra esse intento que se insurge, pois ele configura suprema arrogância e atualização da antiga tentação bíblica do ser como Deus.

O ser humano, por mais que queira, jamais superará os limites de sua natureza. Só uma ciência com consciência servirá à vida e garantirá o futuro da Terra. A autora propugna por moedas complementares, por um consumo compassivo e reciclável, por uma revolução radical de dentro para fora e de baixo para cima, no jogo do ganha/ganha, como forma de sair com êxito do cipoal em que nos enredamos.

A frase final de seu brilhante livro é esperançadora: "Quando desistirmos de ser deuses, poderemos ser plenamente humanos, o que ainda não sabemos o que é, mas que intuímos desde sempre".

fonte: O Tempo

quarta-feira, outubro 21, 2009

Covil de Ladrões

Por: Joaquim Tiago

Certa vez o Profeta de Nazaré da Galiléia fez uma entrada maravilhosa em Jerusalém, o que está registrado no evangelho do ex-cobrador de impostos, o públicano Mateus (cap. 21). O Profeta rumou em direção ao templo, um lugar altamente frequentado e o centro da cidade, o centro religioso de Jerusalém, o centro de várias ações públicas e principalmente comerciais. O grande templo era considerado uma das maravilhas do mundo antigo, construído pelo “gente boa” Herodes que tentou ofuscar a glória do primeiro templo feito por Salomão, isso com a intenção política de agradar a “judeus e romanos”.

Havia muita gente naquele lugar, vinham pessoas de todas as vizinhanças principalmente nos dias de festas tradicionais marcadas no calendário judeu, festas oficiais que vigorava dentro da lei. Todo mundo queria fazer sua “adoração”, cumprir seu voto e agradecer pelo resultado da colheita, pelo nascimento de um filho, o livramento da morte e outros afins.

Neste grande aglomerado de gente não podia faltar ela, a mãe dos negócios “bem feitos”, a progenitora dos burgueses, o encontro dos escambos, também uma das filhas do acumulo, da fartura, e do mercado. É..., Ela mesma: A feira. Neste caso, próximo ao templo, em suas margens, é a grande feira “gospel” de Jerusalém, onde cada pessoa podia comprar sua “adoração”.

Uma feira interessante, neste shopping ao ar livre, tinha-se muitas coisas, de pombas para pobres a carneiros sem defeito para ricos. Existia nesta feira uma figura histórica que fazia sua participação ativamente, ele agia com o câmbio ou como cambista onde nasce o nome da sua mesa de negócios. Jerusalém estava neste tempo sob domínio político e quase cultural de Roma, e numa grande jogada de markting os donos de “gravadoras”, “lojas” só estavam aceitando dinheiro Romano. Isso fez com que todo o povo de Jerusalém, toda redondeza fossem obrigados a trocar a moeda no câmbio para ir até o negociador e adquirir o seu “sacrifício” e fazer sua “adoração”. Uma prisão sócia econômica feita por Roma e aceito pelos sacerdotes que já tinha uma comissão dos cambistas, tudo em nome da boa fé vinda do povo. Para os feirantes de todos os tempo o lucro é o fim que importa, os meios são sempre os meios.

O Profeta de Nazaré não gostou nem um pouquinho do que estavam fazendo e literalmente “chuta o pau das barracas”, quebra tudo, expulsa os mercadores, expulsa os vendedores de “adoração”. O Profeta atrapalha todo negócio, atrapalha todo comércio que se fazia ali naquela feira “gospel” dos crentes de Jerusalém. Imaginem só a situação, o povo aclamando o Nazareno, todos em sua volta, um bando de gente simples, acompanhando o Mestre e repentinamente, quase como uma incitação a revolução, o Rabi se volta contra os lojistas e quebra, sai quebrando tudo. O Rabi Nazareno olha para o povo e olha para esses mercadores e a única revelação de que lhe vêem a mente é: “Covil de Ladrões”. Transformaram a casa do Pai em um buraco onde vocês se escondem e fazem seus negócios abusando da boa fé do povo, da ética e aproveitando do domínio cultural vindo do império. O Profeta de Nazaré em Jerusalém diante da feira “gospel” não foi nem um pouquinho “gospel”. Alguns dos empresários, financiadores de “adoração” possivelmente falaram da seguinte forma: “Esse camarada esta fora da ‘visão’!”. “Esse é contra a ‘visão’!”. E Caifaz com sua turma comentaram horrores, até a morte. Chegaram a conclusão que teriam de encontrar alguma coisa onde podiam pegá-lo, onde ele fosse morto.

E o Profeta continuou ali curando, realizando milagres e atendendo a gente simples. As crianças realmente adoraram, delas veio mesmo o perfeito louvor.

Entendo que o maior problema que tenho com a vida e vejo em outros é a relação com o poder. O que fazer com ele? Como no belo romance de J. R. R. Tolkien em “O Senhor dos Anéis”:
“O Um Anel é o instrumento máximo do poder. Poder esse que até Gandalf preferiu não arriscar, deixando o fardo para Frodo. E cabe ao pequeno hobbit o dilema da saga: ter o poder não é possuir o Um Anel, e sim destruí-lo. Frodo deve então renunciar ao poder porque ele corrompe. Só assim ele será capaz de destruir Sauron.”

Ter uma feira “gospel” e contar com a boa fé dos crentes pode ser o instrumento máximo de poder. O poder do lucro, do reter, da ganância e o da ilusão pensando em “visão”. Mas o que fazer com o poder que corrompe?

A feira era “gospel” mas não era de Cristo, havia “adoração” mas não havia serviço, havia sacrifico, mas não havia entrega. Cristo é entrega, ou o que se entregou. Ele é a renúncia. “Ele renunciou a si mesmo e se entregou por nós”.

Você adora quando serve e entrega e não quando compra e paga pelos pecados. Os pecados já foram pagos e hoje é tudo pela fé e via graça e de graça.

Assim de graça recebeste de graça entregaste.

“Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.” Mt 6:21

quarta-feira, setembro 16, 2009

Marcha para quem?


Para Jesus! Uma Marcha com Donos e Palanques?


Há cerca de um quarto de século, um ministro anglicano no interior da Inglaterra, diante da divisão do Corpo de Cristo e do avanço do Secularismo, teve a feliz idéia de convidar colegas de outras Igrejas para fazerem uma passeata pública, como demonstração de unidade e expressão de fé. Já que a semana que precede o Dia de Pentecostes (no calendário das Igrejas Históricas) é dedicado à unidade dos cristãos, tal evento deveria acontecer sempre no sábado da semana anterior à festa dedicada ao Espírito Santo.


O evento foi denominado de ‘Marcha para Jesus’, e ele deveria ser espontâneo e informal. Organizações como a Jocum, a Primus e a Ichthtus compraram a ideia, e, em 1987, na cidade de Londres, promoveram o primeiro grande evento de massas. Em poucos anos a ideia se propagou por todo o mundo, arrastando multidões cada vez maiores, no que foi jocosamente chamado de “a procissão dos crentes”...


Como tudo no Brasil parece acabar em pizza, samba ou malandragem, eis que a nossa “Marcha” virou marca registrada, patenteada por uma esperta “denominação” pseudo-pentecostal de íntima convivência com o Poder Judiciário daqui e doutras terras. No Brasil a “Marcha” tem dono. Como é um evento único, e uma forma de peitar a sua concorrente a “Marcha do Orgulho Gay”, muita gente tem dela participado, embora a reboque do “apóstolo”, da “bispa”, ou de seus representantes.

E, o que é pior, um ato que em todo mundo é apartidário, aqui virou palanque para os políticos apoiados por seus organizadores, inclusive em ano eleitoral. Políticos a fim de faturar o voto evangélico, e que fazem acordos com os seus organizadores, mas que, conforme seja, não teriam problema em subir nos trios elétricos da colorida marcha concorrente.


O falecido ex-presidente da França, general Charles de Gaulle, afirmou certa vez não ser o Brasil “um país sério” (o que muito nos ofendeu). Mas que às vezes parece que o velho general tem razão, isso parece.


Que Jesus não seja um pretexto, não tenha donos e não seja usado como cabo eleitoral! Cada dia marchemos unidos pelo Evangelho de salvação e transformação.


Robinson Cavalcanti, bispo anglicano.


LULA, DILMA, CRIVELLA, A “BISPA” SÔNIA E O “APÓSTOLO” HERNANDES JUNTOS! MEU DEUS!!!


(...)

Vejam que foto histórica esta publicada no Estadão Online. Lula instituiu ontem o Dia Nacional da Marcha para Jesus. Participaram da cerimônia, realizada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o presidente da Câmara, Michel Temer; o senador e “bispo” Marcelo Crivella (PRB-RJ), sobrinho de Edir Macedo, dono da Igreja Universal,;a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e o casal da Igreja Renascer Sônia e Estevam Hernandes. Crivella é este que aparece à esquerda, contraindo os olhos enquanto entra em conexão, suponho, com o Espírito Santo. Nunca entendi por que certos religiosos, de qualquer denominação, quando julgam entrar em contato com a Pomba Sagrada fazem essa cara.

Há quem faça coisas ainda mais estranhas. É o caso da “bispa” Sônia e seu marido, o “apóstolo” Estevam. Quando o Espírito Santo está presente, eles desandam a falar línguas estranhas. Mangabeira Unger perde feio. Não sei como se contiveram ontem. Estevam é essa cabeleira grisalha em primeiro plano; Sônia está à sua direita, a cabeleira castanha. Dilma é aquela com ar beato. A foto não deixa de ser um bom retrato do Brasil.

O casal da Renascer acaba de sair da cadeia nos Estados Unidos e já participa de uma solenidade ao lado de Lula e de sua candidata. Não sei se vocês estão lembrados: a dupla tentou entrar naquele país com dólares que não tinham sido declarados, escondidos na capa de uma Bíblia. O leitor cético dirá que estão todos entre iguais. Afinal, a “bispa” e o “apóstolo” apenas portavam “recursos não-contabilizados”.

(...)

Trecho do texto de Reinaldo Azevedo, colunista da Veja.


quinta-feira, setembro 03, 2009

Pandemia de lucro

Por: Leonardo Boff

Que interesses econômicos se movem por detrás da gripe suína?... No mundo, a cada ano morrem milhões de pessoas vítimas da Malária que se podia prevenir com um simples mosquiteiro. Os noticiários, disto nada falam!

No mundo, por ano morrem 2 milhões de crianças com diarréia que se poderia evitar com um simples soro que custa 25 centavos. Os noticiários disto nada falam!

Sarampo, pneumonia e enfermidades evitáveis com vacinas baratas, provocam a morte de 10 milhões de pessoas a cada ano. Os noticiários disto nada falam!

Mas há cerca de 10 anos, quando apareceu a famosa gripe das aves – gripe aviária - …os noticiários mundiais inundaram-se de notícias… Uma epidemia, a mais perigosa de todas…Uma Pandemia! Só se falava da terrífica enfermidade das aves. Não obstante, a gripe das aves apenas causou a morte de 250 pessoas, em 10 anos… 25 mortos por ano.

A gripe comum, mata por ano meio milhão de pessoas no mundo. Meio milhão contra 25. Um momento, um momento. Então, porque se armou tanto escândalo com a gripe das aves? Porque atrás desses frangos havia um “galo”, um galo de crista grande. A farmacêutica transnacional Roche com o seu famoso Tamiflú vendeu milhões de doses aos países asiáticos. Ainda que o Tamiflú seja de duvidosa eficácia, o governo britânico comprou 14 milhões de doses para prevenir a sua população. Com a gripe das aves, a Roche e a Relenza, as duas maiores empresas tranasnacionais farmacêuticas que vendem os antivirais, obtiveram milhões de dólares de lucro. - Antes com os frangos e agora com os porcos... - Sim, agora começou a psicose da gripe suína. E todos os noticiários do mundo só falam disso… - Já não se fala da crise econômica nem dos torturados em Guantánamo …Só a gripe suína, a gripe dos porcos… - E eu me pergunto: se por trás dos frangos havia um “galo”, por trás dos porcos… não haverá um “grande porco”?

A empresa norte-americana Gilead Sciences tem a patente do Tamiflú. O principal acionista desta empresa é nada menos que um personagem sinistro, Donald Rumsfeld, secretário da defesa de George Bush, artífice da guerra contra o Iraque… Os acionista das transnacionais farmacêuticas Roche e Relenza estão esfregando as mãos, estão felizes pelas suas vendas novamente milionárias com o duvidoso Tamiflú. A verdadeira pandemia é de lucro, os enormes lucros destes mercenários da saúde.

Não nego as necessárias medidas de precaução que estão sendo tomadas pelos países. Mas, se a gripe suína é uma pandemia tão terrível como anunciam os meios de comunicação... Se a Organização Mundial de Saúde se preocupa tanto com esta enfermidade, porque não a declara como um problema de saúde pública mundial e autoriza o fabricação de medicamentos genéricos para combatê-la?

Prescindir das patentes da Roche e Relenza e distribuir medicamentos genéricos a todos os países, especialmente aos pobres, essa seria a melhor solução. Mais ética, sensata, responsável e humanamente justa, ao menos...


(PASSEM ESTA MENSAGEM COMO SE TRATASSE DE UMA VACINA, PARA QUE TODOS REFLITAM SOBRE UM ÂNGULO DIFUSO DA REALIDADE DESTA “PANDEMIA”.)

fonte: CEBsuai

Uma Silva


Por: Leonardo Boff


Uma Silva (Marina) sucessora de um Silva (Luiz Inácio)?

Não estou ligado a nenhum partido, pois, para mim, partido é parte. Como intelectual, interesso-me pelo todo, embora concretamente saiba que o todo passa pela parte. Tal posição me confere a liberdade de emitir opiniões pessoais e descompromissadas com os partidos.



De antemão, afirmo que a eleição de Lula é uma conquista do povo brasileiro, principalmente dos que foram sempre colocados à margem do poder. Ele introduziu uma ruptura histórica como novo sujeito político e isso parece ser sem retorno. Não conseguiu escapar da lógica macroeconômica, que privilegia o capital e mantém as bases que permitem a acumulação das classes opulentas. Mas introduziu uma transição de um Estado privatista e neoliberal para um governo republicano e social, que confere centralidade à coisa pública (res publica) e tem beneficiado vários milhões de pessoas. Tarefa primeira de um governante é cuidar da vida de seu povo, e isso Lula fez, sem nunca trair suas origens de sobrevivente da grande tribulação brasileira.



Quem será seu sucessor? Para responder essa questão, precisamos ganhar altura e dar-nos conta das mudanças ocorridas no Brasil e no mundo. Em oito anos, muita coisa mudou. O PT foi submetido a duras provas e importa reconhecer que nem sempre esteve à altura do momento e das bases que o sustentam. Estamos ainda esperando uma vigorosa autocrítica interna a propósito do presumido "mensalão". Nós, cidadãos, não perdoamos essa falta de transparência e de coragem cívica e ética.



Em grande parte, o PT virou um partido eleitoreiro, interessado em ganhar eleições em todos os níveis. Para isso, obrigou-se a fazer coligações muito questionáveis, em alguns casos, com a parte mais podre dos partidos, em nome da governabilidade que, não raro, colocou-se acima da ética e dos propósitos fundadores do PT.



Há uma ilusão de que o PT deve romper: imaginar-se a realização do sonho e da utopia do povo brasileiro. Eu que, em função de meu trabalho, circulo pelas bases da sociedade, vejo que se esvaziou a discussão sobre "que Brasil queremos", discussão que animou por decênios o imaginário popular. Houve uma inegável despolitização, em razão do PT ter ocupado o poder. Fez o que pôde quando podia ter feito mais, especialmente em referência à reforma agrária e à inclusão estratégica (e não meramente pontual) da ecologia.



Quer dizer, o sucessor não pode se contentar em fazer mais do mesmo. Importa introduzir mudanças. E a grande mudança na realidade e na consciência da humanidade é o fato de que a Terra já mudou. A roda do aquecimento global não pode mais ser parada, apenas retardada em sua velocidade. A partir de 23 de setembro de 2008, sabemos que a Terra, como conjunto de ecossistemas com seus recursos e serviços, já se tornou insustentável porque o consumo humano, especialmente dos ricos que esbanjam, já passou em 40% de sua capacidade de reposição.



Essa conjuntura, se não for tomada a sério, pode levar nos próximos decênios a uma tragédia ecológica e humanitária de proporções inimagináveis e, até o final do século, ao desaparecimento da espécie humana. Cabe reconhecer que o PT não incorporou a dimensão ecológica no cerne de seu projeto político. E o Brasil será decisivo para o equilíbrio do planeta e o futuro da vida.




Qual é a pessoa com carisma, com base popular, ligada aos fundamentos do PT , que se fez ícone da causa ecológica? É uma mulher, seringueira, da Igreja da Libertação, amazônica. Ela também é uma Silva como Lula. Seu nome é Marina, Osmarina Silva.


O PT virou um partido eleitoreiro, que quer ganhar eleições


fonte: O Tempo





quinta-feira, agosto 20, 2009

Legado da crise


Por: Leonardo Boff


Legado da crise: qual o melhor sonho para ser realizado?
Há caminho para um futuro seminal para a
humanidade
A crise atual está destruindo a esperança de grande parte da humanidade, especialmente dos jovens. Há um vazio de sonhos e causas que possam mobilizar as pessoas. Miguel d’Escoto, presidente da assembleia da ONU, disse que "o legado dessa crise será uma batalha de alcance global em torno de ideias, melhor dito, em torno de qual sonho será melhor para a humanidade e para a Terra".

Tudo geralmente começa de baixo, de algo que parece insignificante, mas está na direção certa e carrega as potencialidades do novo. Foram essas ideias que me vieram à mente, ao participar do 12º Encontro de Comunidades Eclesiais de Base (CEB) em Porto Velho, Rondônia, em meados de julho. Lá estavam mais de três mil pessoas, representantes de cerca de cem mil comunidades, vindas de todos os cantos do Brasil. O tema formulado foi "Do ventre da Terra, o grito que vem da Amazônia".

Participei de grupos e das plenárias. Fiquei extasiado com o nível de consciência acerca das questões ecológicas locais e globais, do aquecimento global e da tragédia que pode advir a toda a humanidade, caso não mudemos nosso modo de ser. O que mais os preocupava era o impacto dos grandes projetos previstos para a Amazônia: mais de 50 hidrelétricas, mineradoras, siderúrgicas e abertura de estradas. Indignação causava o avanço do agronegócio e da pecuária sobre a floresta e o cerrado.

Curiosamente, davam-se conta de que tais macroprojetos estão dentro da lógica do modelo de crescimento, atrasado, que se impõe de cima para baixo, sem dialogar com as populações locais - indígenas, seringueiros, ribeirinhos, quilombolas e outros. Esses resistem, fecham estradas, cercam as obras para obrigar os diretores a dialogar com eles. Mas sabem que tais projetos serão feitos sem qualquer consideração. Eles querem mostrar que se pode fazer de outro jeito e até buscar alternativas menos agressivas à natureza.

Foram analisados em detalhe os cinco gritos que irrompem da Amazônia: o dos povos originários, obrigados ao traslado e a perder as suas terras, tradições e culturas; o da terra, grilada e devastada pela ganância de lucro; o das águas, muitas delas contaminadas pelo mercúrio dos garimpos, matando peixes e tirando a subsistência dos ribeirinhos; o das florestas sendo derrubadas. Para eles, é claro: o problema não é o chão que é pobre, mas o que está em cima dele, como plantas, animais, os milhares de insetos, enfim, a biodiversidade; a missão da Amazônia não é ser terra para soja, cana ou gado, mas ficar de pé a fim de garantir o equilíbrio dos climas mundiais, assegurar a umidade para longínquas regiões atingidas pelos "rios voadores" que saem da floresta, pois cada grande árvore lança na atmosfera por dia cerca de 300 litros de água em forma de umidade. Finalmente, o grito das cidades, 40% delas sem água encanada e 80% sem esgoto.

Tiraram-se conclusões claras: as CEBs não devem ser apenas comunidades eclesiais, mas também ecológicas de base, coisa que está presente na própria sigla CEB. Importa assumir a "florestania", quer dizer, a condição de cidadãos da floresta preservada, apoiando movimentos populares e partidos políticos ligados à transformação social.

Ecoou nos quatro dias o lema do extraordinário bispo da floresta dom Moacyr Grechi: "gente simples, fazendo coisas pequenas em lugares pouco importantes, quando unidos, fazem coisas extraordinárias". A gente das CEBs está fazendo milagres. Aí há caminho e um futuro seminal para a humanidade.

Deus não planta árvores, dizia o bispo. Planta sementes. Entre elas, estão as CEBs: sementes do novo.
Fonte: O Tempo


quinta-feira, agosto 13, 2009

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO



A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: O CRISTIANISMO A FAVOR DOS EXCLUÍDOS

por: Alexandre Marques Cabral

A palavra teologia vem da conjugação de TÉOS e LÓGOS, dois termos gregos. Poder-se-ia dizer que teologia é todo discurso acerca de Deus. Assim, por exemplo, foi denominado por Aristóteles em seu livro “Filosofia Primeira”, que hoje conhecemos com o nome de metafísica. Para Aristóteles o TÉOS seria objeto de pesquisa da maior de todas as ciências: a ciência do ser enquanto ser – esta que hoje denominamos de metafísica. Portanto, para ser estagirita – Aristóteles, a metafísica, ou seja, a filosofia primeira, é sinônimo de teologia.

Apesar de podermos falar de teologia em um sentido lato, tal como abordamos acima, atualmente o significado deste termo difere-se deste que expusemos. Teologia hoje é o discurso racional acerca de Deus a partir dos dados advindos de um livro revelado: Bíblia, Alcorão, etc. À teologia compete, portanto, a atualização dos dados revelados através do discurso (lógos), segundo as exigências históricas vigentes. Com isso, se mostra o caráter transitório do discurso teológico: a transitoriedade do discurso deve-se à transitoriedade própria da história humana, da cultura e de suas diversas problemáticas. Deus, por isso, deve sempre aparecer ao homem, através do discurso teológico, historicamente situado. Esta, última informação nos leva a perceber a imbricação necessária entre teólogo, revelação e história.

Não obstante à imbricação supracitada, não poucas vezes a teologia cristã se configurou de forma totalmente anacrônica em seus discursos e, conseqüentemente, em seus conceitos. A teologia cristã durante séculos, preocupou-se com o hyperurânio de Platão, com o motor imóvel de Aristóteles, com a cidade de Deus de Agostinho, menos com as problemáticas históricas que fatalmente orientavam a vida social do homem. É comum nos depararmos com textos clássicos da teologia e sermos levados às nuvens, aos céus, como, por exemplo, num texto de Irineu ou de S. Agostinho de Hipona. Mas, qual a razão disto? Isto ocorreu por mera vontade dos teólogos? Certamente, não.

A teologia cristã configurou-se de forma anacrônica por muito tempo, devido ao instrumental filosófico que ela utilizou para discursar acerca de Deus. Tal instrumental derivava-se da metafísica clássica que tem como característica formular conceitos anacrônicos, desconsiderando o caráter histórico do homem – ou seja, desconsiderando o homem enquanto ser histórico, que se faz (constrói) no tempo. A conseqüência disto, é que os dados da revelação cristã – Bíblia – foram entendidos como realidades atemporais e ahistóricas. Por isso, por muito tempo – certamente, também ainda hoje – entendeu-se Deus, Reino dos Céus, inferno, etc., como realidades totalmente transcendentais, totalmente destacadas dos processos e fases históricas da humanidade.

Esta forma de discurso acerca de Deus foi submetida à crítica com o advento da modernidade e do pensamento contemporâneo. A metafísica, que foi a “pedra angular” da teologia clássica, foi fortemente criticada a partir da modernidade. Descobriu-se, após séculos de especulação, a história como característica essencial do homem e a cultura como âmbito de toda construção histórica. Com isso, o pensamento ocidental, largou aquele transcendentalismo metafísico, tornando-se por isso mais imamentista. Isto influenciou fortemente a teologia. O encontro do homem com Deus – chamado pela teologia da GRAÇA – passou a ser pensado como realidade histórica: Deus se manifesta ao homem situando-se histórica e culturalmente, ou seja, o encontro de Deus com o homem difere-se na história em suas diversas épocas, e difere-se na pluralidade cultural que se dá no seio da humanidade. Obviamente, isto gerou uma certa relativização no discurso sobre Deus; porém, valorizou a historicidade como característica essencial do ser humano, além de valorizar a multiplicidade de formas de Deus se apresentar ao homem, superando, assim, o anacronismo clássico metafísico que norteava o pensamento teológico no entendimento da relação homem – DEUS.

A chamada Teologia da Libertação está inserida nesta última fase do pensamento ocidental que destacamos acima: a fase da valorização da história, da cultura e da diversidade de formas de manifestação do encontro do homem com Deus. Ela é uma teologia propriamente cristã; por isso, utiliza a Bíblia como pressuposto necessário de seus discursos.

A expressão “teologia da libertação”, já mostra o sentido norteador deste discurso teológico. O genitivo que aparece na expressão citada – DA LIBERTAÇÃO -, mostra-nos que a libertação é o horizonte regulador do discurso acerca de Deus, e, ao mesmo tempo, mostra-nos que o Deus do discurso é fonte de libertação. Esta se manifesta concretamente nos diversos momentos do processo histórico de um povo. Conseqüentemente, a teologia da libertação torna-se força geradora de ações que viabilizam uma práxis libertadora, segundo as necessidades advindas das diversas circunstâncias sob as quais um povo está submetido.

“A teologia da libertação é um movimento teológico que quer mostrar aos cristãos que a fé deve ser vivida numa práxis libertadora e que ela pode contribuir para tornar esta práxis mais autenticamente libertadora” (MONDIN, 1980, p. 25). Neste sentido, o cristão é impelido a viver a práxis libertadora nas diversas épocas da história.

O termo libertação foi cunhado a partir da realidade cultural, social, econômica e política sob a qual se encontrava a América Latina, a partir das décadas de 60/70 do último século. Os teólogos deste período, católicos e protestantes, assumiram a libertação como paradigma de todo fazer teológico. Vejamos o quadro social da América Latina no período originário da teologia da libertação:

“O ambiente político é geralmente caracterizado pela presença de governos que administram o poder arbitrariamente em vantagem dos ricos e dos poderosos, fazendo amplo uso da força e da violência. (...) O ambiente econômico e social está marcado pela miséria e pela marginalização da maior parte da população. Os recursos econômicos são controlados por um pequeno grupo de privilegiados. (...) No ambiente cultural se verifica ainda uma notável dependência da Europa e dos Estados Unidos. Na ciência como na filosofia, na arte como na literatura, quase nada é concedido à originalidade das populações latino-americanas” (Ibidem, p. 25-26).

O quadro de degradação apresentado na América Latina é o fundamento gerador do conceito de libertação. A libertação, então, é toda “ação que visa criar espaço para a liberdade” (BOFF, 1980, p. 87). Ser livre, neste sentido, é não estar sob o jugo da lei alheia; é poder construir-se autonomamente. O processo histórico da América Latina foi e é dominado por diversas leis estranhas a ela. A América do Norte, em especial os EUA, e os países europeus, sempre impuseram aos latino–americanos seus valores, suas políticas, sua cultura, etc. Neste sentido, a libertação no seio da América Latina, é a luta pela liberdade da cultura, dos valores, da economia, da política latino-americanos, frente às diversas opressões advindas de um modelo imperialista que rege a práxis do hemisfério norte em suas relações com o hemisfério sul, especialmente como o povo latino–americano. Tal relação impõe ao hemisfério sul a cultura do hemisfério norte.

Devido à pobreza e à nefasta degradação do povo latino-americano, a libertação deve ser entendida como superação de um processo de exclusão; já que esta é a conseqüência direta da relação norte–sul, onde milhões de homens e mulheres empobrecem e se deterioram porque ficam à margem (excluídos) do processo econômico e político norteado pelo capitalismo imposto pelos EUA e Europa.

Desta forma compete à teologia da libertação a tarefa de discursar sobre Deus a partir da ótica de um processo excludente e a partir da realidade concreta dos excluídos. O teólogo da libertação, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olhar para o excluído. Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluído identifica onde há necessidade de libertação. Olhando para Deus – ou Cristo -, a teologia da libertação diferencia-se de todo movimento libertador laico, já que a libertação apresentada pela teologia enxerga nos processos históricos a possibilidade de presentificação da nova ordem escatológica anunciada por Cristo, ou seja, o Reino de Deus – ordem de justiça e da superação de toda opressão possível, na sociedade e no cosmos. Ao pretender olhar para o excluído e para o sistema gerador de opressão, como pressuposto de todo fazer teológico, a teologia da libertação difere-se radicalmente das teologias clássicas, pois supera o anacronismo destas, circunscrevendo a experiência de Deus no âmbito do engajamento do fiel na luta contra todo o sofrimento humano historicamente situado.

Para que haja elaboração da teologia da libertação é mister que se compreenda os fenômenos da opressão e da exclusão. Estes devem ser compreendidos através de uma mediação sócio – analítica, “Libertação é libertação do oprimido. Por isso, a teologia da libertação deve começar por se debruçar sobre as condições reais em que se encontra o oprimido de qualquer ordem que ele seja.” (BOFF, 1996, p. 40). O método utilizado para elucidar sócio–analiticamente o fenômeno da opressão e a exclusão pela teologia da libertação, é o método histórico- dialético.

O marxismo passa a ser a filosofia predominante na análise sócio–analítica feita pela teologia da libertação. Porém, o marxismo é utilizado como instrumento, não tendo fim em si mesmo. “Na teologia da libertação o marxismo nunca é tratado em si mesmo, mas sempre a partir, e em função dos pobres” (Ibidem, p. 45). O sentido último da teologia não é Marx, mas Deus.

Após a leitura sócio–analítica, o teólogo da libertação deve-se deparar com a Bíblia Sagrada. A Bíblia deve fornecer subsídios para que se possa identificar a face de Deus e sua ação libertadora, nos diversos momentos históricos, sob as quais vive o teólogo e seu povo. Há, então, no processo de elaboração da teologia da libertação, uma imbricação necessária entre a análise sócio–analítica da realidade e a Bíblia Sagrada. Esta última fornece o sentido teológico da práxis libertadora proposta pela teologia da libertação.

Com a gênese da teologia da libertação na América Latina, “a religião passa a ser um fator de mobilização e não do freio” (BOFF, 1980, p. 102). A religião não mais se apresenta como “ópio do povo”. Ela passa a ser fonte de libertação e de esperança para o homem. A religião, desta forma, não se reduz a uma ideologia que mantém o status quo social e político; também não é mais fonte de discursos etéreos. A teologia da libertação pretende mostrar que Deus não está em uma esfera trans–histórica; mas, ela quer mostrar que Deus encarna-se na história, gera libertação de um povo humilhado, gera vida e esperança a um povo crucificado e sem sonhos. Podemos dizer, metaforicamente, que a teologia da libertação anuncia a ‘’descida’’ de Deus de sua esfera transcendente e “celeste” e mostra-o como agente dignificador dos humilhados da terra. Deus não é mais um conjunto de doutrinas e especulações, mas é a fonte de toda a luta pela justiça e igualdade. Por isso, Deus se manifesta nas lutas históricas pela justiça, pela inclusão e pela superação de toda opressão vigente na humanidade. “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.”(Ex 20,2). Eis a face de Deus anunciada pela teologia da libertação: Deus que tira o povo da opressão, da servidão.

O céu almejado pela humanidade, não é pensado como realidade post mortem. Este céu que fora pensado pela teologia clássica como realidade distante que se manifestaria no porvir, encarna-se no “agora”, através da práxis do povo em prol da dignidade humana: cada conquista popular, no que tange a uma relação mais justa entre os homens, presentifica o céu no seio da humanidade.

A teologia da libertação surge para mostrar que Deus é “Pai – Nosso”; portanto os homens e as mulheres devem se relacionar como irmãos e irmãs, sem haver exclusão, sem haver opressão ou sem qualquer tipo de violação da dignidade humana. Lutar pela libertação é valorizar a paternidade universal de Deus, que se manifesta nas relações justas e fraternas entre todos os seres humanos.


Bibliografia:

1. BÍBLIA SAGRADA. São Paulo: SBB, 1996.
2. BOFF, Leonardo, BOFF, Clodovis. Como fazer teologia da libertação. Petrópolis: Vozes, 1986.
3. BOFF, Leonardo. Teologia do cativeiro e da libertação. Petrópolis: Vozes, 1980.
4. _____________ O caminhar da Igreja com os oprimidos: do vale das lágrimas à terra prometida. Rio de Janeiro: Codecri, 1980.
5. MONDIN, B. Os teólogos da libertação. São Paulo: Paulinas, 1980.


Resumo:
O objetivo do artigo é o de apresentar o paradigma da libertação como agente norteador discurso teológico latino–americano surgido na década de 60 do século XX. Esta teologia caracteriza-se pela valorização da ação de Deus na história, como fonte de libertação social, e pela valorização da práxis social libertadora, como expressão de fé em um deus libertador.


Palavras-chave: teologia; teologia da libertação; América Latina; cristianismo.

* Alexandre Marques Cabral é professor de filosofia da faculdade de teologia Redemptoris Mater – Macaé.


fonte: http://www.achegas.net/

quinta-feira, agosto 06, 2009

Neopaganismo evangélico


Por: José Arthur Giannotti

Estava passeando pela TV quando dei com um culto da Igreja Mundial do Poder de Deus. Teria rapidamente mudado de canal se não tivesse acabado de ler o interessante livro de Ronaldo de Almeida, "A Igreja Universal e seus Demônios - Um Estudo Etnográfico" [ed. Terceiro Nome, 152 págs., R$ 28], que me abriu os olhos para o lado especificamente religioso dos movimentos pentecostais. Até então, via neles sobretudo superstição, ignorando o sentido transcendente dessas práticas religiosas.

No culto da TV, o pastor simplesmente anunciou que, dado o aumento das despesas da igreja, no próximo mês, o dízimo subia de 10% para 20%. Em seguida, começou a interpelar os crentes para ver quem iria doar R$ 1.000, R$ 500 e assim foi descendo até chegar a R$ 1.

Notável é que o dízimo não era pensado como doação, mas simplesmente como devolução: já que Deus neste mês dera-lhe tanto, cabia ao fiel devolver uma parte para que a igreja continuasse no seu trabalho mediador. Em suma, doar era uma questão de justiça entre o fiel e Deus.

Em vez de o salário ser considerado como retribuição ao trabalho, o é tão só como dádiva divina, troca fora do mercado, como se operasse numa sociedade sem classes. Isso marca uma diferença com os antigos movimentos protestantes, em particular o calvinismo, para os quais o trabalho é dever e a riqueza, manifestação benfazeja do bom cumprimento da norma moral.

Se o salário é dádiva, precisa ser recompensado. Não segundo a máxima franciscana "é dando que se recebe", pois não se processa como ato de amor pelo outro. No fundo vale o princípio: "Recebes porque doastes". E como esse investimento nem sempre dá bons resultados, parece-me natural que o crente mude de igreja, como nós procuramos um banco mais rentável para nossos investimentos.

O crente doa apostando na fidelidade de Deus. Os dísticos gravados nos carros, "Deus é fiel", não o confirmam? Mas Dele espera-se reciprocidade, graças à mediação da igreja, cada vez mais eficaz conforme se torna mais rica. Deus é pensado à imagem e semelhança da igreja, cujo capital lança uma ponte entre Ele e o fiador.


Anticalvinismo


Além de negar a tradicional concepção calvinista e protestante do trabalho, esse novo crente não mantém com a igreja e seus pares uma relação amorosa, não faz do amor o peso de sua existência.

Sua adesão não implica conversão, total transformação do sentido de seu ser; apenas assina um contrato integral que lhe traz paz de espírito e confiança no futuro. Em vez da conversão, mera negociação. Essa religião não parece se coadunar, então, com as necessidades de uma massa trabalhadora, cujos empregos são aleatórios e precários?

Outro momento importante do livro é a crítica da Igreja Universal ao candomblé, tomado como fonte do mal. Essa crítica não possui apenas dimensões política e econômica, assume função religiosa, pois dá sentido ao pecado praticado pelo crente.

O pecado nasce porque o fiel se afasta de Deus e, aproximando-se de uma divindade afro-brasileira, foge do circuito da dádiva. Configura fraqueza pessoal, infidelidade a Deus e à igreja.


Nada mais tem a ver com a ideia judaico-cristã do pecado original. Não se resolve naquela mácula, naquela ofensa, que somente poderia ser lavada pela graça de Deus e pela morte de Jesus, mas sempre requerendo a anuência do pecador.

Se resulta de uma fraqueza, desaparece quando o crente se fortalece, graças ao trabalho de purificação exercido pelo sacerdote. O fiel fraquejou na sua fidelidade, cedeu ao Diabo cheio de artimanhas e precisa de um mediador que, em nome de Deus, combata o Demônio. O exorcismo é descarrego, batalha entre duas potências que termina com a vitória do bem e a purificação do fiel.


Paganismo


Compreende-se, então, a função social do combate ao candomblé: traduz um antigo ritual cristão numa linguagem pagã. Os pastores dão pouca importância ao conhecimento das Escrituras, servem-se delas como relicário de exemplos. Importa-lhes mostrar que o Diabo, embora tenha sido criado por Deus, depois de sua queda se levanta como potência contra Deus e, para cumprir essa missão, trata de fazer o mal aos seres humanos.

O mal nasce do mal, ao contrário do ensinamento judeu-cristão que o localiza nas fissuras do livre-arbítrio. Adão e Eva são expulsos do Paraíso porque comeram o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal e assim se tornam pecadores, porque agora são capazes de discriminar os termos dessa bipolaridade moral.

Essa teologia pentecostal se aproxima, então, do maniqueísmo. Como sabemos, o sacerdote persa Mani (também conhecido por Maniqueu), ativo no século 3º, pregava a existência de duas divindades igualmente poderosas, a benigna e a maligna. Isso porque o mal somente poderia ter origem no mal. A nova teologia pentecostal empresta o mesmo valor aos dois princípios e, assim, ressuscita a heresia maniqueísta, misturando o cristianismo com a teologia pagã.

via: http://pavablog.blogspot.com/2009/08/neopaganismo-evangelico.html
fonte: José Arthur Giannotti, na Folha de S.Paulo.

quinta-feira, julho 30, 2009

A falta que faz um pouco de marxismo à encíclica do papa

A falta que faz um pouco de marxismo à encíclica do papa

Por: Leonardo Boff
Perspectiva não é de baixo, da vida real, mas de cima

A nova encíclica de Bento XVI "Caritas in Veritate", de 7.7.2009, é uma tomada de posição da Igreja face à crise atual. O complexo das crises que atingem a humanidade demandaria um texto profético, carregado de urgência. Mas não é isso que recebemos, senão uma longa reflexão sobre problemas atuais e projeções sobre um governo mundial. O gênero não é profético, o que suporia "uma análise concreta de uma situação concreta". Isso possibilitaria investir contra os problemas em tela na forma de denúncia-anúncio. Mas não é da natureza desse papa ser profeta. Ele é um doutor e um mestre. Elabora o discurso oficial do magistério, cuja perspectiva não é de baixo, da vida real, mas de cima, da doutrina ortodoxa, que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos. A tônica dominante não é a da análise, mas da ética, do dever ser.


Como não faz análise da realidade atual, o discurso magisterial permanece principista, equilibrista, e se define por sua indefinição. O subtexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teórica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante. Já se nota na abordagem do tema central - o desenvolvimento, tão criticado por não tomar em conta os limites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala. A visão é de que o sistema mundial se apresenta fundamentalmente correto. O que existe são disfunções, e não contradições. Esse diagnóstico sugere terapia semelhante à do G-20: retificações, e não mudanças; melhorias, e não troca de paradigmas; reformas, e não libertações. É o imperativo do mestre: "correção", não a do profeta: "conversão".


Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos por pensar: como faria bem ao papa um pouco de marxismo! Este, ao partir dos oprimidos, tem o mérito de desmascarar as oposições presentes no sistema atual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a voracidade da sociedade de mercado, competitiva, consumista e injusta. Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção. Isso caberia ao papa denunciar. Mas não o faz.


O texto do magistério, olimpicamente fora e acima da situação conflitiva atual, não é ideologicamente "neutro"como pretende. É um discurso reprodutor do sistema imperante. Não é questão de Bento XVI querer ou não querer, mas da lógica estrutural desse tipo de discurso. Por renunciar a uma análise crítica séria, paga um preço alto em ineficácia teórica e prática. Não inova, repete.


E aí perde uma enorme oportunidade de se dirigir à humanidade num momento dramático da história, a partir do capital simbólico de transformação e esperança contido na mensagem cristã. O papa não valoriza o novo céu e a nova Terra, que podem ser antecipados pelas práticas humanas, apenas conhece essa vida decadente e insustentável (seu pessimismo cultural) e a vida eterna e o céu que virão. Afasta-se da mensagem bíblica de consequências políticas revolucionárias ao afirmar que a utopia terminal do reino da justiça, do amor e da liberdade só será real na medida em que se construírem e anteciparem, nos limites do espaço e do tempo histórico, tais bens entre nós.


Curiosamente, quando se "esquece" do tom magisterial, na parte final da encíclica, introduz coisas sensatas como a reforma da ONU, a nova arquitetura econômico-financeira internacional, o conceito do bem comum do globo e a inclusão relacional da família humana.


Parafraseando Nietzsche, "quanto de análise crítica o magistério da Igreja é capaz de incorporar"?


fonte: http://www.otempo.com.br/

A Igreja que não existe mais (4)


por Ariovaldo Ramos

O que existe?

- A Comunhão dos santos existe na realidade da Igreja invisível. Mas, que relevância tem na história uma igreja invisível?

- Ajuntamentos cúlticos – há os que procuram se pautam pela Bíblia, e os que nem tanto.

- Instituições – (muitas e cada vez mais) há as que ainda tentam ser apenas um odre para o vinho, e as que nem tanto.

- Discursos sobre Cristo e sua obra – há os que falam sobre Jesus, segundo a Bíblia, e os que nem tanto.

- Conversões pessoais – há as que trazem marcas do Novo Testamento, e as que nem tanto.

- Missionários – há os que pregam a Cristo, sua morte e ressurreição, e os que nem tanto. O apoio ao missionário está mais para esmola do que para sustento.

- Ação social – há as que querem emancipar o pobre, por amor a Cristo, e as que nem tanto.

- Pastores e Lideres – há os que tentam alcançar o padrão dos presbíteros do Novo Testamento, e os que tanto menos.

- Títulos - em profusão, constratanto com a escassez de irmãos.

- Orações - principalmente, por necessidades materiais, sociais e de cura, que parecem não ser respondidas, pelo menos, não a contento.

- Milagres – (mas pessoais) a misericórdia divina continua se manifestando, porém, não se entende mais o princípio de sua ação.

- Ministérios – há os que são ministros (servos), e os que nem tanto.

- Riqueza – Instituições estão cada vez mais ricas, e há os que usufruem da mesma.

- Irmãos e irmãs que amam a Cristo e a Igreja, mas que estão cada vez mais confusos sobre o que estão assistindo – e há, cada vez mais, um amor em crise.

E ecoa a voz do Cristo: Contudo quando vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra? (Lc 18.8)

Talvez, ainda haja tempo de pedir perdão!

Fonte: http://www.irmaos.com/ariovaldoramos/

A Igreja que não existe mais (3)


por Ariovaldo Ramos



Pelo que orava a Igreja do Novo Testamento?


“Mas eles ainda os ameaçaram mais, e, não achando motivo para os castigar, soltaram-nos, por causa do povo; porque todos glorificavam a Deus pelo que acontecera; pois tinha mais de quarenta anos o homem em quem se operara esta cura milagrosa. E soltos eles, foram para os seus, e contaram tudo o que lhes haviam dito os principais sacerdotes e os anciãos. Ao ouvirem isto, levantaram unanimemente a voz a Deus e disseram: Senhor, tu que fizeste o céu, a terra, o mar, e tudo o que neles há; que pelo Espírito Santo, por boca de nosso pai Davi, teu servo, disseste: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma, contra o Senhor e contra o seu Ungido. Porque verdadeiramente se ajuntaram, nesta cidade, contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, não só Herodes, mas também Pôncio Pilatos com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho predeterminaram que se fizesse. Agora pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que falem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para curar e para que se façam sinais e prodígios pelo nome de teu santo Servo Jesus. E, tendo eles orado, tremeu o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com intrepidez a palavra de Deus.” At 4.21-31


Oravam para que nenhum sofrimento os impedisse de glorificar a Cristo, de anunciá-lo com coragem e determinação – o Cristo que eles viviam diariamente pela fraternidade solidária. Oravam por missão!

Para além da Igreja que está sob perseguição, não há sinal de que essa Igreja ainda exista!

Continua.

Fonte: http://www.irmaos.com/ariovaldoramos/


A Igreja que não existe mais (2)


por Ariovaldo Ramos

“Está doente algum de vós? Chame os anciãos da igreja, e estes orem sobre ele, ungido-o com óleo em nome do Senhor; e a oração da fé salvará o doente, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados.” Tg 5.14-15
Os membros da comunidade do Cristo não precisavam orar por cura física, bastava procurar os presbíteros: lideres eleitos pelo povo, a partir de suas qualidades como cristãos (1Tm 3.1-7); que eles ungiriam com óleo, que representa a ação do Espírito Santo, porque é o Espírito Santo, quem unge e cura (Lc 4.18), e a pessoa seria curada; claro, sempre segundo a vontade do Senhor, porque essa é a regra de ouro: “Venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, assim na Terra como no Céu." (Mt 6.10)

Os crentes em Jesus de Nazaré, não precisavam fazer varredura espiritual para ver se tinham qualquer problema, parecido com o que hoje é chamado de maldição hereditária, ou similar. A oração dos presbíteros ministrava o perdão de Deus, conquistado por Cristo na cruz e na ressurreição.

Deus havia respondido todas as orações por cura física pela instituição de presbíteros, que tinham a autoridade para ministrar o poder de Cristo sobre a enfermidade, segundo a vontade de Deus, dependendo, portanto, apenas, do que o Altíssimo tivesse decidido sobre a pessoa em questão.

Essa Igreja não existe mais!

Continua.

Fonte: http://www.irmaos.com/ariovaldoramos/

A Igreja que não existe mais (1)


por Ariovaldo Ramos
“Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum. E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um. E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos.” At 2:43-47
Na época do surgimento da Igreja do Novo Testamento, a palavra igreja significava, apenas, uma reunião qualquer de um grupo organizado ou não. Assim, o texto nos revela que havia um grupo organizado em torno de sua fé (Todos os que criam estavam unidos) – todos acreditavam em Cristo.

Segundo o texto, os participantes do grupo do Cristo não tinham propriedade pessoal, tudo era de todos (tinham tudo em comum) – os membros desse grupo vendiam suas propriedades e bens e repartiam por todos – e isso era administrado a partir da necessidade de cada um; e se reuniam todos os dias no templo; e pensavam todos do mesmo jeito, primando pelo mesmo padrão de vida (unânimes); e comiam juntos todos os dias, repartidos em casas, que, agora, eram de todos, uma vez que não havia mais propriedade particular; e eram alegres e de coração simples; e viviam a louvar a Deus; e todo o povo gostava deles, e o grupo crescia diariamente. Diariamente, portanto, havia gente acreditando em Cristo, se unindo ao grupo, abrindo mão de suas propriedades e bens e colocando tudo à disposição de todos.

Essa Igreja era a Comunhão dos santos – chamados e trazidos para fora do império das trevas, para servirem ao Criador, no Reino da Luz.

Essa Igreja não precisava orar por necessidades materiais e sociais, bastava contar para os irmãos, que a comunidade resolvia a necessidade deles.

Deus havia respondido, a priori, todas as orações por necessidades materiais e sociais, fazendo surgir uma comunidade solidária.

O pedido: “O pão nosso de cada dia, dá-nos hoje." (Mt 6.9) estava respondido, e diariamente.

Então, para haver o “pão nosso” não pode haver o pão, o bem ou a propriedade minha, todos os bens e propriedades têm de ser de todos.

Mais tarde, eles elegeram um grupo de pessoas, chamadas de diáconos – garçons, para cuidar disso (At 6.3). Então, diante de qualquer necessidade, bastava procurar os garçons, que a comunidade cuidava de tudo. Era o princípio do direito: se alguém tinha uma necessidade, a comunidade tinha um dever.

Essa Igreja não existe mais!

Continua.

fonte: http://www.irmaos.com/ariovaldoramos/

quinta-feira, julho 23, 2009

Fator ecológico não é estratégico para o atual governo


Por: Leonardo Boff

Somos ignorantes, atrasados, inconscientes e irresponsáveis

Quem teve o privilégio de acompanhar a cúpula dos povos na ONU, de 24 a 26.6, para encontrar saídas includentes para a crise econômico-financeira, vivenciou dupla perplexidade. A primeira, o fato de se ter chegado a um surpreendente consenso acerca de medidas a serem implementadas a curto e a médio prazos. A segunda, verificar que tudo se concentrou apenas no aspecto econômico-financeiro, sem qualquer referência aos limites da biosfera e à devastação da natureza que o tipo de desenvolvimento vigente implica. Quer dizer, a economia virou um conjunto de teorias e fórmulas que expertos dominam e aplicam, esquecendo-se de que ele é parte da sociedade e da política, algo, portanto, ligado à vida das pessoas. Era como se os políticos e expertos não respirassem, não comessem, não se vestissem e andassem nas nuvens, e não no solo. Mas, para eles, tais coisas são meras externalidades que não contam.

Ao ouvi-los, pensava eu lá com meus botões: quão inconscientes e irresponsáveis são esses políticos, representantes de seus povos, que não se dão conta de que a verdadeira crise não é essa que discutem, mas a da insustentabilidade da biosfera e a incapacidade de a mãe Terra repor os recursos e serviços necessários para a humanidade e para a comunidade. Bem advertiu o ex-secretário da ONU Kofi Annan: essa insustentabilidade não apenas impede a produção e a reprodução, senão põe em risco a sobrevivência da espécie humana.

Todos são reféns da economia-zumbi do desenvolvimento, entendido como puro crescimento econômico (PIB). Ora, exatamente esse paradigma do desenvolvimento mentirosamente sustentável do atual modo de acumulação mundial está levando a humanidade e a Terra à ruínas. As pessoas são as últimas a contar. Primeiro, vêm os mercados, os bancos, o sistema financeiro. Com apenas 1% do que se aplicou para salvar os bancos da falência, poder-se-ia resolver toda a fome do planeta, atesta a FAO. A mesma FAO advertiu: existem 40 países com reserva alimentar de apenas três meses. Sem uma articulada cooperação mundial, grassará fome e morte de milhões de pessoas.

Discutir a crise econômica-financeira sem incluir as demais crises - o aquecimento global, a alimentária, a energética e a humanitária - é mentir aos povos sobre a real situação da humanidade.

Temo que nossos filhos e netos, daqui a alguns anos, olhando para o nosso tempo, tenham motivos de nos amaldiçoar e de nos devotar um soberano desprezo, porque não fizemos o que devíamos fazer. Sabíamos dos riscos e preferimos salvar as moedas e garantir os bônus quando poderíamos salvar o Titanic que estava afundando.

O Brasil, nesse sentido, é uma lástima. Se há um país no mundo que goza das melhores oportunidades ecológicas e geopolíticas para ajudar a formular um outro mundo, esse seria o Brasil. Ele é a potência das águas, possui a maior biodiversidade do planeta e as maiores florestas tropicais, tem possibilidade de criar uma matriz energética limpa, mas não acordou ainda. Nos fóruns mundiais, vive em permanente sesta política. Não despertou para suas possibilidades e responsabilidades face à preservação da Terra e da vida.

Ao contrário, na contramão da história, estamos construindo usinas à base do carvão. Desmatamos a Amazônia em 1.084 quilômetros quadrados entre agosto de 2008 a maio de 2009. E somos o quinto maior poluidor do mundo. O fator ecológico não é estratégico no atual governo. Somos ignorantes, atrasados, faltos de senso de responsabilidade face ao nosso futuro comum.


Fonte: http://www.otempo.com.br/otempo/


quinta-feira, julho 16, 2009

O culto do ócio


Por: Paulo Brabo

Antes de encerrar esta série sobre o papel do espírito protestante na formação e na glorificação do capitalismo (a despeito do choque muito evidente com a pregação de Jesus a respeito da acumulação de riquezas), não tenho como não enfatizar que tudo que discutimos até aqui aplica-se diretamente apenas às nações ocidentais do hemisfério norte.

Nosso aquário ideológico aqui no Brasil é outro, e é apenas recentemente (digamos, sessenta anos) que a pregação americana do culto da perfomance tem alcançado verdadeira penetração entre nós – especialmente na metade meridional do país e nas capitais em geral – e, mesmo assim, com assimilação e resultados mistos.

EU NÃO GANHO PRA ISSO.

Graças a uma colonização diferente, o que professamos e praticamos aqui é uma postura virtualmente oposta a de americanos e europeus: eles têm o culto da performance, nós temos o culto do ócio.

Fomos colonizados por senhores católicos e portanto latinos; o espírito protestante não deixou mais do que uma marca de dente nos anos da nossa história colonial. Nossos colonizadores criam de todo o coração em desfrutar das riquezas deste mundo, mas desconfiavam com a mesma convicção do mérito do trabalho. Sujar as mãos era coisa de escravo, e trocar a nossa roupa e dar-nos banho trabalho de criado. A agenda do senhor colonial era bocejar entediado, fazer o filho de cada dia, olhar pela janela e ver o espetáculo dos que davam o sangue para acumulhar riquezas em seu nome.

O culto do ócio é a crença de que feliz mesmo é quem é rico sem ter de trabalhar. Pela sua onipresente influência, vivemos todos no Brasil a eterna expectativa de ganhar na loteria, de arranjar algum emprego público, de granjear um cargo de confiança, de encontrar o padrinho perfeito, de descansar numa aposentadoria precoce. Eu não ganho pra isso – é sua rancorosa profissão de fé.

INVEJAMOS OS RICOS, MAS NÃO AO PONTO DE NOS DOBRARMOS À BAIXEZA DE ECONOMIZAR.

Invejamos os ricos, mas não ao ponto de nos dobrarmos à baixeza de economizar para alcançar uma posição financeira mais confortável. Trabalhar, sentimos, já é humilhação suficiente.

Pela mesma razão, o trabalho para nós não tem o mesmo objetivo que tem para americanos e europeus. Para eles trabalhar é uma maneira de garantir um futuro melhor; para nós, é um modo de prover alguma gratificação instantânea. Se cometemos a baixeza de trabalhar é para vivermos mesmo que por um instante como se não o precisássemos.

É como resume magistralmente o refrão do Forró pé-de-chinelo de Marinês:

Coisa melhor é ver o dia amanhecer

Não querer nem saber que a gente tem que trabalhar

Que trabalhar é pra poder ganhar dinheiro

Ganhar dinheiro pra poder se esbandalhar


***

De um lado então, estão protestantes americanos, que crêem que há evidente mérito em trabalhar, porque possibilita a acumulação de riquezas; do outro, católicos brasileiros, que crêem que há evidente mérito em desfrutar de riquezas, desde que não exija a acumulação de trabalho.

Tanto um pensamento quanto o outro afastam-se a seu modo da posição radical de Jesus, que cria não haver qualquer mérito na acumulação ou no desfrutar de riquezas. A postura de Jesus não prescinde do trabalho mas não o glorifica; não glorifica o ócio mas exige tranqüilidade. As aves não acumulam reservas, e ainda assim o Pai as alimenta – argumentava ele, não querendo com isso dizer que as aves não trabalham. Pelo contrário, a força do exemplo está em que as aves trabalham incessantemente, mas não movem um músculo para acumularem aquilo de que em última instância não precisam.

Os frugais é que são felizes, e rico é quem não precisa de nada.

fonte: http://www.baciadasalmas.com/